A partir de estudo de pesquisadores da Escola de Nutrição da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia) foi constatado que o número de estudantes brasileiros obesos e desnutridos vem crescendo ao longo dos últimos anos, principalmente entre aqueles de escola pública e de classes sociais menos favorecidas. Para o cirurgião e presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, Marcos Leão Vilas Bôas, esse resultado se dá em decorrência da “transição nutricional” que o Brasil, assim como outros países em desenvolvimento, vem vivendo.
“O fenômeno da obesidade e o excesso de peso vem ocorrendo no mundo todo e tem chegado cada dia mais no Brasil”, analisa o médico. “Assim como em países mais populosos”, compara. Marcos Leão ainda destaca que apesar de nos últimos anos o acesso aos alimentos pela população mais pobre ter aumentado, as pessoas tem “comido mais, mas sem qualidade, sem preocupação com a alimentação”.
Para chegar até o resultado, os pesquisadores observaram dados de duas edições da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense), desenvolvida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), envolvendo mais de 70 mil estudantes no Brasil com idades entre 13 e 17 anos em 2009 e 2015.
A pesquisa apontou que, entre 2009 e 2015, o índice de adolescentes com excesso de peso na rede privada não apresentou alteração, se mantendo em 28,7%. Enquanto isso a taxa entre os da rede pública aumentou de 19% para 23,1%.
Ao fazer um recorte por região, foi possível notar que nos estados do Nordeste os estudantes desnutridos representam 3,7%, aqueles com sobrepeso chegam a 20,5% e a prevalência da obesidade atinge 6,4% dos alunos. Embora o estudo não tenha se baseado em classes sociais, há variáveis analisadas que indicaram um crescimento de obesidade, atingindo cada vez mais a população menos favorecida socioeconomicamente.
Nesse sentido, o cirurgião aponta como importante para análise o perfil da população menos abastada no Brasil, levando em conta ainda a seleção natural e adaptação das espécies. “A camada mais pobre do Brasil é formada em maioria por pessoas negras, e nós negros somos um povo selecionado para viver com pouco, a evolução nos permitiu essa resistência”, argumentou Marcos Leão. “Termina se traduzindo no aumento da obesidade”, conclui o raciocínio.
Entre os fatores que colaboraram para o resultado constatado pelo estudo, na visão do profissional, ainda está a grande oferta de alimentos altamente calóricos e ricos em açúcar e gordura. A fim de destacar o perigo desses alimentos e tornar mais fácil a compreensão do que eles representam no cenário da obesidade, Marcos Leão utilizou uma analogia com o tráfico de drogas. “A indústria alimentar faz um processo parecido com a indústria do tráfico de drogas, ou seja, quanto mais açúcar, mais gordura, mais palatável aprazível. Ela promove essas coisas para que o indivíduo fique viciado naquilo”, afirmou.
Atividades comuns no cotidiano também compõem a lista dos fatores que levaram o Brasil aos números atuais de obesidade e sobrepeso. “Se juntar isso ao fenômeno de conectividade, digitalização da cultura, em que as pessoas estão mais presas a equipamentos de entretenimento, que não envolvem gasto energético, há ainda o fato que as pessoas se locomovem com veículos, cada vez menos com as pernas”, frisa o médico.
Como alternativas para mudar o quadro atual, o especialista destacou a informação, “acabando com mensagens subliminares nas propagandas” e também aumentando a quantidade de dados sobre os alimentos nas prateleiras. Além de uma mudança na tributação dos alimentos mais saudáveis. “Diminuir impostos facilita a aquisição e estimula o consumo da classe mais pobre desses alimentos mais saudáveis, com baixo teor de açúcar e gordura”, pressupõe Marcos.
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