Por José Maria Franco de Godoi Neto
O talento precisa de estratégia para vencer
A cada Copa do Mundo, a atenção do público se concentra nos grandes craques. São eles que estampam capas de jornais, movimentam torcidas e protagonizam os lances que ficam para a história. Mas quem acompanha o futebol de alto nível sabe que o talento, por si só, raramente é suficiente para conquistar um título.
As seleções que chegam às fases decisivas costumam compartilhar características menos visíveis aos olhos do torcedor: planejamento, preparação, análise de adversários, gestão de riscos e capacidade de adaptação. Em um torneio curto, no qual um único erro pode significar a eliminação, improvisar custa caro.
O Direito como parte da estratégia empresarial
No ambiente empresarial, a lógica é bastante semelhante. Empresas também operam em cenários de elevada competitividade, convivem com mudanças regulatórias, oscilações econômicas, transformações tecnológicas e riscos que nem sempre podem ser previstos com exatidão.
O diferencial competitivo não está apenas na qualidade de seus produtos ou na competência de seus profissionais, mas na capacidade de tomar decisões consistentes diante da incerteza.
É justamente nesse ponto que o Direito deixa de exercer um papel exclusivamente técnico e passa a integrar a estratégia do negócio.
Gestão de riscos e preparação para cenários incertos
Ainda persiste em muitas organizações a percepção de que o departamento jurídico deve ser acionado apenas quando surge um problema: um contrato em disputa, uma autuação, um processo judicial ou uma crise regulatória.
Assim como uma comissão técnica não entra em campo apenas para reagir aos erros da equipe, a atuação jurídica mais eficiente é aquela que participa da construção das decisões desde o início.
Avaliar riscos, estruturar contratos, antecipar impactos regulatórios e fortalecer mecanismos de governança significa ampliar a qualidade das escolhas empresariais antes que os problemas apareçam.
A Copa também ensina outra lição importante: estratégia não elimina riscos. Mesmo as seleções mais preparadas podem sofrer um gol inesperado, enfrentar lesões ou encontrar adversários que mudam completamente o rumo da partida.
O planejamento não existe para impedir o imprevisto, mas para aumentar a capacidade de resposta quando ele acontece.
A inteligência coletiva no futebol e nas empresas
Nas empresas, ocorre exatamente o mesmo. Nenhum modelo de governança impede integralmente crises, litígios ou mudanças de cenário.
O que diferencia organizações mais maduras é a rapidez com que conseguem reagir, minimizar impactos e preservar sua capacidade de crescimento.
Essa preparação exige integração entre diferentes áreas. Da mesma forma que uma equipe campeã depende da coordenação entre comissão técnica, departamento médico, analistas de desempenho e atletas, uma empresa precisa alinhar suas áreas jurídica, financeira, operacional e de compliance.
O ambiente econômico atual reforça essa necessidade. Projetos cada vez mais complexos, novas exigências regulatórias, expansão da inteligência artificial, proteção de dados, sustentabilidade e mudanças constantes nas relações comerciais tornam insuficiente uma atuação jurídica limitada à resolução de conflitos.
No futebol, dificilmente uma seleção conquista uma Copa apenas porque possui o melhor jogador do mundo. Os campeões normalmente são aqueles que conseguem transformar talento individual em inteligência coletiva, disciplina tática e capacidade de execução.
Nas empresas, o princípio é semelhante. Boas ideias continuam sendo fundamentais, assim como profissionais qualificados e oportunidades de mercado.
Mas são a governança, o planejamento e a gestão adequada dos riscos que permitem transformar potencial em resultados consistentes.
Ao final, talvez a principal lição que a Copa oferece ao mundo corporativo seja simples: títulos e bons resultados não são fruto do acaso.
Eles são consequência de decisões bem construídas antes mesmo de a partida começar. E, nesse processo, o Direito deixou de ser apenas um mecanismo de proteção para assumir um papel essencial na construção da estratégia empresarial.
José Maria Franco de Godoi Neto – advogado, mestre em Direito USP/SP, mestre em Gestão de Risco FEA/USP e especialista em Finanças pela FGV/SP, sócio do Franco de Godoi Advogados e membro fundador da STRUCTURA Investments.












Imagem ilustrativa | Foto: Hélio Alves/ Tribuna do Recôncavo
Imagem ilustrativa de feto durante a gestação. Foto: Mohamed Hassan/Pixabay

























































































