Por Leonardo Calazans – urologista geral e pediátrico

A maioria das pessoas não faz ideia do que seja uma hérnia inguinal ou uma hidrocele, mas a cirurgia para tratar esses problemas de causa comum é o procedimento cirúrgico mais comum na infância. Entre 1 e 2% dos recém-nascidos nascidos a termo – entre a 37ª e a 42ª semanas de gestação – apresentam a doença, que afeta quase um terço dos bebês prematuros e acomete mais os meninos do que as meninas. Geralmente, o que se nota é um caroço ou inchaço na região inguinal (virilha), principalmente quando o bebê faz força (chora ou evacua). Assim que constatado o problema, a cirurgia precisa ser realizada, pois 75% das complicações graves das hérnias inguinais acontecem nos bebês de até três meses de vida. Atualmente, técnicas minimamente invasivas são as mais indicadas.

Nos meninos, tanto a hérnia inguinal quanto a hidrocele resultam da passagem do conteúdo intra-abdominal (alças intestinais e líquido peritoneal, respectivamente) através de um canal formado ainda na vida intra-uterina durante a migração do testículo da cavidade abdominal para a bolsa escrotal. Quando, ao final dessa descida testicular, esse canal não fecha espontaneamente, ocorre a passagem do conteúdo abdominal para o canal inguinal, podendo chegar até o escroto. “Dependendo do conteúdo do canal inguinal, podemos ter duas situações: a hérnia inguinal, no caso da passagem de vísceras abdominais, ou a hidrocele, quando ocorre somente a passagem de líquidos”, explicou o urologista geral e pediátrico Leonardo Calazans.

As manifestações clínicas da hérnia inguinal são dor súbita em região inguinal e aumento de volume, que pode se estender desde a região inguinal até o escroto. Na hidrocele, diferentemente da hérnia, geralmente não há dor, apenas aumento intermitente do volume da bolsa escrotal. O tratamento é cirúrgico, independe da idade. A cirurgia é realizada em regime ambulatorial, sob anestesia geral, com baixo índice de complicações. O objetivo da operação é descolar o saco da hérnia das estruturas vizinhas e amarrá-lo na região de sua origem no abdômen, para que não mais possa conduzir as vísceras ou líquidos pelo canal.

Segundo Calazans, que é médico referência do Hospital Mater Dei e coordenador da residência de Urologia das Obras Sociais Irmã Dulce, em Salvador, o tratamento convencional é feito através de cortes na região da virilha a partir da identificação do canal inguinal, que é ressecado e fechado. “Em cirurgias convencionais, mais invasivas, a criança costuma sentir dores no pós-cirúrgico, além de demorar um tempo maior para retornar às suas atividades normais. Já  as técnicas videolaparoscópicas minimamente invasivas que utilizamos atualmente permitem que a correção seja feita com menos riscos e melhor recuperação. O tempo de duração da cirurgia é menos da metade do que o de uma cirurgia aberta”, destacou Leonardo Calazans.

Ainda segundo o especialista, que também coordena o serviço de Urologia Pediátrica do Hospital Estadual da Criança (Feira de Santana) e dirige o núcleo de urologia do Instituto Baiano de Cirurgia Robótica (IBCR), a cirurgia deve ser feita com brevidade a partir do diagnóstico para evitar o estrangulamento da hérnia, que ocorre quando uma víscera intestinal fica presa no canal por onde a hérnia sai e passa a ter seu suporte sanguíneo comprimido e insuficiente, correndo o risco de necrosar no interior da hérnia. Pode-se suspeitar de um episódio de estrangulamento quando a criança sabidamente portadora de hérnia sente dor local muito intensa e vomita repetitivamente. “Este quadro é mais frequente em bebês do que em crianças maiores. O tratamento nestes casos é a cirurgia de urgência, que apresenta risco maior do que o de uma cirurgia eletiva”, concluiu.