Nesta última quinta-feira, dia 16, a notícia de um possível tsunami na costa do Brasil gerou alarde e foi um dos assuntos mais comentados nas redes sociais. A ocorrência do tsunami estaria ligada à possível erupção de um vulcão nas Ilhas Canárias. Mas, afinal, essa história é #fato ou #fake? A gente te explica!
Tudo começou quando o vulcão Cumbre Vieja teve um rápido aumento das atividades sísmicas nos últimos dias, o que chamou a atenção de especialistas. O vulcão fica na ilha de La Palma, nas Canárias, a cerca de 500km da costa africana, a baixas latitudes – próximo ao Marrocos.
Com um aumento rápido no número de atividades sísmicas e alteração na emissão de gases, o Plano Especial de Proteção Civil e Atenção às Emergências de Risco Vulcânico das Ilhas Canárias (Pevolca) elevou o nível de alerta do vulcão de verde para amarelo. Mas o que isso significa na prática?
A geóloga e vulcanóloga da Universidade de São Paulo (USP) Leticia Freitas Guimarães explica que os observatórios vulcanológicos divulgam constantemente relatórios com resultados de análises de vários parâmetros medidos em um vulcão (como sismo, deformação do solo e emissão e composição de gases). Esses parâmetros definem um sistema de alerta que é dividido em quatro estágios, representados pelas cores verde, amarelo, laranja e vermelho. “Se a atividade vulcânica é considerada normal e está no alerta verde, você não precisa se preocupar. No entanto, conforme ocorre deformação do solo, por exemplo, ou há maior ocorrência de sismos e eles estão sendo mais rasos, ou conforme a composição dos gases muda, esses são indícios de uma erupção iminente, e com isso o alerta vai mudando de cor”, afirma Leticia.
De qualquer modo, a geóloga reitera que, para uma população que vive em local próximo a um vulcão, um alerta amarelo não representa motivo para pânico.
O vulcão Cumbre Vieja é o mais ativo das Ilhas Canárias? FATO!
A ilha de La Palma é a quinta maior das oito ilhas que compõem o arquipélago das Ilhas Canárias e a segunda mais alta. Ela é composta por dois vulcões, entre eles o Cumbre Vieja, localizado mais a sul. “Se a gente analisar a história eruptiva das ilhas de todo o arquipélago, as atividades vulcânicas começaram há algumas centenas de milhares de anos. Desde meados dos anos 1400, houve 13 eventos eruptivos, sendo 6 deles registrados na ilha La Palma e relacionados ao Cumbre Vieja”, explica Letícia. Com isso, o vulcão é considerado o mais ativo das Ilhas Canárias.
A chance de o vulcão Cumbre Vieja entrar em erupção é alta? FATO!
O Cumbre Vieja tem uma frequência eruptiva muito elevada, sendo a mais recente registrada em 1971. No entanto, a geóloga explica que é necessário avaliar qual tipo de erupção que ele é mais propício a gerar, conforme sua história eruptiva. No caso do Cumbre Vieja, as 6 erupções que ocorreram tiveram atividade explosiva de baixa intensidade.
O Índice de Explosividade Vulcânica varia de 0 a 8, e o histórico das erupções explosivas desse vulcão tem índice 2, que é baixo. Além disso, apesar da ocorrência de erupções explosivas, as erupções recentes evoluíram para a predominância de atividade efusiva, que gera fluxos de lava que afetam as comunidades mais próximas.
Com isso, a probabilidade maior é de que, caso ocorra uma erupção, ela seja de baixa magnitude e evolua para derrame de lava, como em todos os eventos recentes. “Essas são erupções que afetam mais a população local”, afirma Letícia.
Apesar de não ser possível prever com exatidão a data e hora de uma erupção vulcânica, conforme ocorrem mudanças no estágio do sistema de alerta, as autoridades comunicam a população com antecedência e, caso seja necessário, ela é orientada a evacuar o local.
O nível amarelo significa que o vulcão irá entrar em erupção em breve? FAKE!
Conforme explicado anteriormente, os níveis do sistema de alerta mudam conforme ocorrem algumas alterações específicas na atividade de um vulcão. Apesar de só ter evoluído agora para o nível amarelo, a frequência e a quantidade dos sismos no Cumbre Vieja já têm registrado aumento desde 2017.
“Nos últimos dias, os sismos ficaram ainda mais frequentes e rasos. Nesse caso, a média do epicentro (onde começa o tremor), que estava em 30km, subiu para 12km de profundidade, o que fez o nível mudar de cor”, afirma Letícia.
No entanto, não há motivo para pânico: a geóloga e vulcanóloga exemplifica que, no Chile, local que está muito mais próximo ao Brasil, existem vulcões que estão no nível amarelo.
“O nível amarelo é apenas um aviso para que a população fique atenta aos comunicados dos órgãos responsáveis porque houve uma pequena mudança nos parâmetros”.
Caso haja erupção, é alta a probabilidade de um tsunami na costa do Brasil? FAKE!
Um trabalho publicado em 2001 por cientistas americanos que afirma existir o potencial de um colapso de terreno (deslizamento) caso uma grande erupção do Cumbre Vieja aconteça está sendo utilizada por diversos portais de notícias de forma sensacionalista.
Segundo a geóloga Letícia Freitas, para causar o colapso, a erupção precisa ser de alta magnitude, ou seja, muito explosiva. “Não é impossível, mas é muito pouco provável”, afirma.
“É claro que existem outros mecanismos capazes de gerar um colapso, como por exemplo o colapso gravitacional, que é muito comum em regiões montanhosas”. A vulcanóloga frisa que a publicação, realizada há 20 anos, analisou o chamado “Worst-case Scenario” (pior cenário possível).
“Mesmo que isso venha a acontecer, o tsunami viajaria uma distância enorme das Ilhas Canárias até o Brasil e, conforme essa viagem acontecesse, haveria muita energia sendo dissipada. Existe uma infinidade de fatores que iriam acarretar nessa dissipação de energia, que não é considerada neste estudo”, afirma a geóloga.
Com isso, a probabilidade de um tsunami na costa do Brasil acontecer é muito pequena e, caso ela ocorra, a chance dele chegar em forma de ondas gigantescas no litoral do país é praticamente nula.
Cuidado com as notícias alarmistas!
Em tempos de fake news, é importante que você sempre procure informação em portais de credibilidade. No caso de vulcões, a melhor fonte são os órgãos oficiais, responsáveis pela observação e divulgação de qualquer alteração nos parâmetros. Faça sua parte e fuja de notícias sensacionalistas!
Matéria: Angela Ruiz/ climatempo


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