Por Josalto Alves (*)
Ao lembrar os horrores da segunda guerra mundial, (1939-1945), conflito que ceifou as vidas de 85 milhões de pessoas (3% da população mundial na época), lamentamos as mortes de 6 milhões de judeus assassinados nos campos de contração nazista. Mas há fatos históricos ignorados pela maioria dos brasileiros e baianos.
A Bahia também teve campos de concentração!
Importa esclarecer que não eram campos de extermínio como os nazistas. Eram campos de confinamento criados pelo governo de Getúlio Vargas para isolar alemães, italianos e japoneses, considerados inimigos. Eles sofreram restrição de liberdade, internamento compulsório, vigilância estatal e suspensão de direitos civis.
Registros históricos apontam que esses confinamentos ocorreram nas cidades de Caetité, Andaraí, Mucugê, Seabra e Maracás, sendo este o caso mais documentado.
O objetivo era controle político e segurança durante a guerra, sob a vigilância do famigerado Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).
No governo de Getúlio Vargas o Brasil adotou política autoritária com controle social. Com a entrada do País na Segunda Guerra Mundial, em 1942, após ataques de submarinos alemães a navios brasileiros no litoral nordestino, o governo intensificou a vigilância interna.
Alemães, italianos e japoneses, passaram a ser vistos como ameaças à segurança nacional e sofreram restrição de liberdade.
Em 1943 centenas de alemães foram levados para os campos de concentração, oriundos de Salvador e do litoral. Eram transportados de madrugada, sob escolta, e tratados como inimigos.
Eram imigrantes alemães e descendentes. Alguns poucos realmente simpatizantes nazistas, mas a maioria era civis comuns.
Nesse cenário, cerca de 200 alemães foram enviados para Maracás, em 1943. Muitos deles já residiam no Brasil há anos, com famílias constituídas e integradas à sociedade brasileira.
Diferente da ideia clássica de campos de concentração, os estrangeiros não foram confinados em instalações cercadas ou isoladas fisicamente. Eles passaram a viver na própria cidade, distribuídos entre a zona urbana e áreas rurais, como a localidade conhecida como Boca do Mato.
Mas não podiam deixar a cidade sem autorização, eram obrigados a se apresentar regularmente às autoridades, enfrentavam limitações no acesso à informação, incluindo restrições ao uso de rádios, e podiam ser alvo de suspeitas ao falar sua língua de origem ou manter costumes culturais.
Mesmo assim, eles não estavam totalmente impedidos de trabalhar. Muitos contribuíram para o desenvolvimento de Maracás atuando no comércio, agricultura e serviços.
Relatos indicam que introduziram técnicas agrícolas e cultivos que influenciaram a economia da região, como o plantio de hortaliças, e participaram da construção de estruturas importantes, como escola e igreja.
A relação com a população local variou ao longo do tempo. Inicialmente marcada por desconfiança, evoluiu para convivência e até solidariedade.
Este artigo visa despertar o interesse pelo resgate dessa história, literalmente apagada da memória coletiva, não só para compreender o passado, mas também para refletir sobre o presente, especialmente em tempos em que o medo e a insegurança voltam a ‘justificar’ medidas excepcionais.
(*) Josalto Alves


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