Com elementos do candomblé, da cultura popular nordestina, as festas de Cosme e Damião e o sincretismo religioso como estratégia histórica de resistência, o espetáculo infantojuvenil musicado ‘Fala, Ìbejì’ continua a ocupar praças públicas em Salvador. Depois de estrear no Largo do Papagaio (Ribeira) e se apresentar na Arena Pronaica (Cajazeiras), o espetáculo chega a Praça São Brás (Subúrbio Ferroviário, 01 e 02 de abril) e ao Largo do Campo Grande (Centro Histórico, de 04 a 12 de abril).
A obra integra o projeto ‘Dupla de Dois: experimento gastronômico-performativo para as infâncias’, com realização da COOXIA Coletivo Teatral e produção da DAGENTE Produções. Com direção de Guilherme Hunder e texto/dramaturgia de Luiz Antônio Sena Jr., ‘Fala ÌbejÌ’ dá continuidade a uma pesquisa cênica afrocentrada de ambos os profissionais dedicada às infâncias, à tradição oral e às pedagogias do terreiro.
A encenação é bilíngue — ou mesmo trilíngue, logo que a dramaturgia é composta por palavras em português, yorubá e tradução em Libras. A LIBRAS é parte da própria cena, integrada à performance do elenco, formado por Anderson Danttas, Ane Ventura, Fernanda Silva, Gabriel Nafisi e Larissa Libório.
Mito ancestral, favela contemporânea
A dramaturgia é livremente inspirada em itans da tradição iorubá, especialmente em narrativas que giram em torno dos Ìbejì, os orixás gêmeos. A trama se desenvolve na casa de Mãe Mainha, uma matriarca respeitada, enquanto todos se preparam para o caruru em homenagem aos gêmeos.
No entanto, a chegada da Morte, chamada apenas de ‘Ela’, pois seu nome não deve ser pronunciado, ameaça interromper a celebração e silenciar a festa. Entre risadas e mistérios, a meninada — Menino, Menina, Guri e Erê — percebe que será preciso coragem, união e muita brincadeira para enfrentá-la. Afinal, ‘essa danada não pode estragar a festa!’.
As crianças com a ajuda de Mãe Mainha lançam o desafio: ela só poderá ficar no Caruru se conseguir dançar até o tambor parar — o que nunca acontece, já que os irmãos se revezam na batida e, por serem gêmeos, não percebe que está sendo enganada. No espetáculo, a relação com a Morte é um subterfúgio para falar sobretudo a respeito de tradição, memória e continuidade.
Cultura Popular
Toda a visualidade do espetáculo – cenário e figurino – tem como referência simbólica as feiras populares, berços de cultura viva. A cenografia concebida por Erick Saboya soma-se aos acessórios de cena concebidos por Elis Brito e aos figurinos concebidos pelo diretor, Guilherme Hunder. Caixotes plásticos de feira, panelas e bacias de ferro, sacolas de palhas e utensílios domésticos, são alguns dos elementos. Os figurinos dialogam com sacos de feira, quiabos e tecidos coloridos, mesclando tradição e urbanidade numa paleta que une os tons do dendê às cores vibrantes da cidade.
As composições inéditas são de Ray Gouveia, que ao lado de Felipe Pires também assina a direção musical. As letras são de Luiz Antônio Sena Jr.. A trilha tem como concepção poética os ritmos afro-brasileiros. O samba ancestral de terreiro, o pagode baiano e os atabaques dialogam com a pulsação urbana dos beats eletrônicos, criando uma musicalidade híbrida, orgânica e dançante.
O projeto ‘Dupla de Dois: experimento gastronômico-performativo para as infâncias’ foi contemplado pelo edital Chamadão das Artes Cênicas, com recursos financeiros da Fundação Gregório de Mattos, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, Prefeitura de Salvador.
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