Por Jorge Miklos – psicólogo e sociólogo e Adriane de Paula Fonseca – Mestranda em Comunicação.

Pacto Brutal é a série apresentada pelo canal de streaming HBOMax. A narrativa apresenta o brutal homicídio cometido em 1992 por Guilherme de Pádua e Paula Thomaz (casados na época do fato) contra Daniela Perez, uma jovem de 22 anos.

Embora o que a série pretenda relatar seja “true” crime e oferecer voz para as pessoas que eram próximas à vítima, o impacto acontece quando constatamos que, mesmo com sua vida já ceifada, Daniela continuou sendo vítima de um sistema que julga, condena e executa mulheres: o patriarcado.

Assistir Pacto Brutal é visualizar o machismo social, a culpabilização feminina e o poder da mídia na alimentação desses estereótipos. Já nos primeiros episódios é possível constatar como a mídia tem papel central na construção de histórias e seus supostos heróis.

Guilherme de Pádua pretendeu, o tempo todo, atribuir o crime ao suposto assédio que sofria de Daniela e, com isso, se transforma em uma celebridade. Sua voz é ouvida, suas versões são espalhadas e sua imagem idolatrada.

Enquanto isso, conforme demonstra a própria série, Gloria Perez enfrenta, além do luto, todo um sistema patriarcal, inclusive na investigação do homicídio. Qual o pecado de Daniela? O maior de todos em um sistema patriarcal: ser mulher.

O próprio sistema incumbido pela investigação mostra sua face machista. Investigações superficiais e ausência de interesse pela oitiva de testemunhas demonstram que o homicídio de uma mulher não é tão grave quanto a história apresentada pelo homem que a assassinou. A busca pela depreciação da imagem de Daniela é a constante busca pela culpabilização da vítima.

O sistema patriarcal só funciona com a cooperação de todos, inclusive as próprias mulheres. Um sistema que é alimentado pela privação da educação, negação das mulheres sobre sua história, divisão das mulheres entre respeitáveis e não respeitáveis, coerção e recompensa para as mulheres que se conformam. Como apontou Simone de Beauvoir, “o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”.

O que Guilherme de Pádua fez foi desumanizar e culpabilizar Daniela, colocando-a como uma ameaça para a sua tradicional família (basta assistir a série para entenderem a ironia dessa frase), provocando nele seu instinto animal (o que justificaria o crime) e utilizando de sua terrível posição: ser mulher.

Ser mulher é viver esperando pela condenação que recairá sobre nossas cabeças, ainda que já estejamos mortas.

Sobre os autores:

Jorge Miklos é sociólogo, psicólogo e psicanalista na abordagem analítica integrativa. É mestre em Ciências da Religião e doutor em Comunicação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Trabalha na interface entre Psicanálise, Religião e Cultura. Suas reflexões abordam o vínculo social, o mito, a literatura, o cinema, a cibercultura, os conflitos, a política e as questões contemporâneas como gênero, masculinidades, religião, vida digital e diversidade. Atua como Professor e Pesquisador no Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Midiática da Universidade Paulista.

Adrianne de Paula Fonseca é advogada, pós-graduanda em Dir. Público pela PUC/Minas e Mestranda em Comunicação da Universidade Paulista.

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