O Terreiro Ilê Axé Icimimo, em Cachoeira, no Recôncavo baiano, sofreu um novo ataque na manhã de terça-feira, dia 9. Segundo o babalorixá da casa, Antônio Santos, o Pai Duda de Candola, homens armados invadiram o terreiro, quebraram um assentamento sagrado dedicado ao orixá Exu e arrancaram as estacas que demarcam a área de 22 hectares do templo de candomblé.

Para Antônio, os responsáveis pelo ataque fazem parte da empresa Penha Papéis e Embalagens, que tem sede na cidade de Santo Amaro da Purificação, localizada ao lado de Cachoeira. Os acusados negam ter participação no ato.

A contenda entre o terreiro e a empresa é antiga. No início do ano passado o Ministério Público da Bahia recomendou que o grupo parasse de invadir o terreno do Ici Mimó. O espaço foi tombado em 13 de maio deste ano pelo Iphan – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Na avaliação do babalorixá Pai Duda de Candola, deste histórico de conflito, a invasão de terça-feira foi a mais agressiva.

“Chegaram com os nervos à flor da pele, deram tiro para cima, cortaram os arames da cerca e quebraram assentamentos centenários. Além de ter o sentimento religioso ferido, a gente perdeu ferramentas de Exu. E com a retirada da cerca, eles deram acesso a pessoas que não são da comunidade religiosa, acesso para animais pastarem e agora nossas folhas sagradas e nascentes estão sem proteção”, disse Candola.

Ainda segundo o babalorixá, plantações clandestinas de bambu têm sido feitas na região do terreiro, o que também se configura como uma ameaça ao templo, pois os bambuzais são incendiados propositalmente com frequência.

“Nosso terreiro, o Ilê Axé Icimimo, foi vítima da violência de pessoas que não entendem nem respeitam o povo de santo. Pedimos atenção e providências das autoridades responsáveis”, disse Pai Duda de Candola.

A superintendência do Iphan na Bahia informou que tomou conhecimento do fato e já encaminhou ao Ministério Público Federal um pedido de investigação. O Iphan justificou que o tombamento provisório emergencial feito em maio deste ano foi justamente com o objetivo de preservar o lugar, que é referência cultural para a religião de matriz africana.

O IPAC – Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia, vinculado à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, afirmou que também acionou o Ministério Público Federal e a Polícia Civil da região, bem como a Prefeitura Municipal de Cachoeira.

DIREITO DE RESPOSTA

O Grupo Penha Papéis e Embalagens afirma que detém terras na região de Cachoeira (BA) desde o ano de 2005 e que o processo de aquisição da fábrica e seus respectivos bens acessórios ocorreram com o amparo da lei e reconhecidos com escritura registrada em cartório.

Segundo o Grupo Penha, as terras mencionadas pelo Terreiro são de propriedade da empresa, que através de um acordo com o Ministério Público realizado em 07/03/2019, ficou autorizado que a instituição religiosa usufruísse de um lote devidamente demarcado com metragem acolhida pelo Ministério Público e, também, pelo Pai Duda.

“Entretanto, o referido terreiro quebrou o acordo inicialmente firmado e instalou cercas em nosso perímetro”.

Ainda segundo o Grupo Penha, as denúncias de uso de violência, intolerância religiosa ou qualquer acusação de ordem segregatista são falsas:

“Somos um grupo empresarial idôneo que atua há quase 60 anos no mercado e agimos de forma responsável com as comunidades em que nossas plantas estão instaladas e com a sociedade como um todo. Lamentamos a atitude do Terreiro por proferir inverdades sobre o acontecimento dos fatos. O Departamento Jurídico do Grupo Penha já está tomando todas as medidas legais cabíveis para resguardar os direitos de nossa propriedade”, conclui a direção do  Grupo Penha.

Redação: Tribuna do Recôncavo | Informações: Correio 24 horas