No dia 4 de dezembro o historiador Ivan Rios será um dos homenageados na Câmara Municipal de Santo Antônio de Jesus (BA) com a Medalha Pedro Kilkerry, por indicação do Vereador Uberdan Cardoso. Ivan realizou em 2015 em Santo Antônio de Jesus o 1º Sarau Pedro Kilkerry em homenagem ao poeta.
Ao Tribuna, Ivan falou que sua identificação com a poesia e a escrita surgiu desde a adolescência. “Sempre fui fascinado pelo mundo de mistério retratado através de contos e poesias góticas, tendo uma profunda identificação com a leitura de autores como Edgard Allan Poe, Fernando Pessoa, Charles Baudelaire e principalmente os brasileiros Álvares de Azevedo, Cruz e Souza, Alphonsus de Guimaraens, Augusto dos Anjos e Pedro Kilkerry, este último objeto de profunda pesquisa que determinou minha iniciativa em publicar parte do que até então havia escrito”.
Para Ivan, Pedro Kilkerry foi um poeta simbolista, um dos três maiores nomes da poesia simbolista nacional ao lado de Alphonsus de Guimaraens e Cruz e Souza. Ele nasceu em Santo Antônio de Jesus no ano de 1885, filho de uma escrava alforriada Dona Salustiana e do irlandês John Kilkerry. Apesar de todas as adversidades Pedro Kilkerry conseguiu naquela época cursar e se formar em Direito, falava fluentemente 04 idiomas, mantinha contatos através de cartas com jornais na Europa, especialmente na França onde possui especial reconhecimento. Teve não mais do que 30 poemas, publicados postumamente no Brasil. O não reconhecimento a aquela época pela sociedade local fez com que o mesmo incendiasse boa parte do que produziu. Morreu prematuramente em 1917 aos 32 anos, na cidade de Salvador, pobre, solitário e tuberculoso, durante uma cirurgia de traqueotomia, na tentativa de minimizar os efeitos da tuberculose, que naquela época representava “sentença de morte”, pois era uma doença incurável.
Ivan ainda falou que a história desse poeta santoantoniense provocou nele uma reflexão existencial. “Estava consternado com o fato de muitas pessoas da cidade onde o mesmo nasceu desconhecerem sua existência, seu legado e sua obra. A vida de Pedro Kilkerry foi marcada não apenas pela superação ante as dificuldades sociais impostas, mas também pela genialidade dos seus poemas, o anonimato fruto da incompreensão social e a forma precoce como morreu. Daí a inevitável identificação com a vida e obra do poeta e pelo fato do mesmo morrer com a mesma idade que eu tinha a época da pesquisa. A partir daí passei a me perguntar: e se eu morresse amanhã?! Remontando ao celebre poema de Álvares de Azevedo. Como, por que e por quem eu seria lembrado? Qual legado deixaria as futuras gerações? Tais inquietações me levaram juntamente com amigos da faculdade, especialmente do curso de História e artistas locais santoantonienses a realizar no dia 14 de maio de 2015 o Sarau Pedro Kilkerry, difundido na imprensa local, como forma singela de apresentar a comunidade esse “ilustre filho, quase condenado ao esquecimento”’.
Na época Ivan conseguiu um caixão emprestado com uma funerária, onde no decorrer do evento foi conduzido pela praça dentro do mesmo pelos colegas e a saída representou “o retorno do poeta”. “O Caixão também simbolizou no evento a forma como a nossa cultura é negligenciada, muitos que assistiam ao evento ficaram surpresos. Até hoje eu e os amigos sempre rimos muito ao lembrarmos aquela situação. Resolvemos realizar aquele evento, não apenas para relembrarmos este grande ícone da nossa poesia, como também valorizar os artistas e escritores que estão em vida em nossa região. É importante reconhecermos o trabalho e a genialidade das pessoas ainda em vida e aproveitar o engrandecimento e riqueza cultural que elas têm a oferecer a sociedade”.
Durante a pesquisa sobre Pedro Kilkerry Ivan se deparou com outro personagem marginalizado da sociedade, cujo legado, assim como o de Kilkerry ainda é desconhecido por muitos. O poeta, também santoantoniense Silvestre Evangelista, um dos escritores do Jornal “O Paládio”. Este além de jornalista era poeta parnasiano, sabe-se que o mesmo escreveu e publicou apenas uma obra de poesias, o livro “Cintilações”, com apenas 30 exemplares.
Evangelista também contraiu a tuberculose, afastou-se da família e da sociedade, isolando-se por conta da doença, entrou em depressão, justamente no período que teve seu maior surto produtivo enquanto escritor. Sabe-se também que Evangelista cavou com as próprias mãos uma gruta em um barranco na localidade rural de Santo Antônio de Jesus conhecida como Boa Vista, lá ele passou os últimos dias de sua vida, assim como Pedro Kilkerry, pelo não reconhecimento da sua obra, Silvestre Evangelista incendiava boa parte do que escrevia, e em um desses surtos ele morreu incendiado, não se sabe se acidentalmente ou por suicídio, entre os papeis e as palhas que o mesmo utilizava como cama. Esse enigmático poeta e sua obra será motivo das minhas próximas pesquisas e do próximo evento, assim como o que homenageou Pedro Kilkerry.
A partir de então Ivan resolveu desengavetar algumas obras de sua autoria. “Tomei a iniciativa de encaminhá-los a CBJE – Câmara Brasileira de Jovens Escritores, que mensalmente realiza seletivas nacionais de contos e poesias. Tive o privilégio de poder participar de 05 obras publicadas nacionalmente, com o conto “Justiça de Jaguaripe que te persiga” que é um conto regionalista que retrata a história da lendária e temível Cadeia do Sal, na cidade de Jaguaripe aqui no recôncavo baiano, além desse conto tivemos selecionados também os poemas: “Nox arcana”, “Errante…”, “Clavícula de Deus” e “Meu eterno pedaço do infinito”, este último que é para mim o mais especial, pois compõe a seletiva em homenagem ao Dia Nacional do Escritor, comemorado no dia 25 de julho e também é dedicado a minha filha e creio retratar bem o que é o espírito de ser pai, por conseguinte torna-se também uma homenagem a todos os pais”.
Sobre a inspiração para escrever Ivan retirou das vivências cotidianas, dos dilemas existenciais, as alegrias e frustrações, enfim, do turbilhão de sentimentos que compõe a vida e o existir. “Além disso, vivemos em uma região imensamente agraciada pela riqueza cultural e histórica. Por toda parte que se caminha no recôncavo baiano a história se faz presente, nas igrejas, nos modos, nos viveres e saberes dos mais velhos. Na feira de Caxixis em Nazaré, na história da Cadeia do Sal em Jaguaripe, nos festejos da Irmandade da Boa Morte em Cachoeira, na lenda da Santa do Cemitério, na resistência do samba de enxadas em São Felipe, na festa de São Bartolomeu em Maragogipe, na riqueza do Samba de Roda, tudo isso é uma simples exemplificação do quanto essa parte do Brasil transborda riquezas e belezas culturais. Traduzo o recôncavo como poesia em forma de território”.
Ivan ressalta que no processo criativo, sobretudo de contos, utiliza frequentemente pessoas do convívio cotidiano para criar os perfis psicológicos dos personagens e muitos destes são colegas de trabalho do mesmo na Embasa. “Isso torna o processo da escrita muito mais prazeroso. Costumo mostrar algumas coisas que escrevo para os colegas mais próximos e sempre nos divertimos muito, pois além de uma analise crítica construtiva ouço também muitas sugestões que tornam as estórias mais peculiares. O conto mais recente que criei, por exemplo, é intitulado “A Santa do Cemitério”, baseado em uma antiga lenda urbana da cidade de São Felipe, onde fui criado e passei boa parte da minha adolescência. Reza tal lenda que há muito tempo, na primeira metade do Século XX, moradores daquela cidade retiraram a Santa que fica na entrada do cemitério da cidade para realizarem uma procissão com a mesma e no dia seguinte a imagem apareceu misteriosamente no mesmo lugar”.
Trecho do conto A Santa do Cemitério, de minha autoria (ainda não publicado/inédito):
“… Os anos se passaram. Silenciei-me sobre tudo o que presenciara. Sempre no dia 27 de novembro vou ao túmulo de Clara e deposito sobre ele uma rosa. Conhecera diversas mulheres até aqui, mas nenhuma despertou em mim o mesmo sentimento daquela noite.
E sempre quando ultrapasso aquele portão, olho para trás e vejo soberana, reinando na entrada daquela inevitável morada. A Santa do Cemitério.”
Edição: Hélio Alves/ Tribuna do Recôncavo | Texto: Ivan Rios.
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