Por Emanuel Pessoa – advogado.
A suspensão é real. A justificativa, legítima: foi detectado no Brasil o vírus da Influenza Aviária de Alta Patogenicidade (IAAP). E, sim, o risco existe — não para a carne processada, mas para o controle da doença em aves vivas. Só que isso não é apenas um tema sanitário. É também um alerta estratégico.
- O TAMANHO DO IMPACTO
A China é um dos principais destinos da carne de frango brasileira. Em 2023, respondeu por cerca de 15% do total exportado, movimentando mais de US$ 1,5 bilhão.
Portanto, qualquer suspensão — mesmo que localizada — impacta diretamente a balança comercial, a receita das agroindústrias e, sobretudo, a confiança dos importadores internacionais.
- NÃO É UMA GUERRA COMERCIAL. É UM SINAL DE ALERTA TÉCNICO
Diferente de outros episódios do passado, como a suspensão da carne bovina por “vaca louca”, desta vez:
- Há um surto verdadeiro, já reconhecido oficialmente.
- A decisão chinesa está alinhada aos protocolos da OIE (Organização Mundial de Saúde Animal).
- E, importante: as relações diplomáticas entre Brasil e China passam por um momento positivo.
O presidente Lula esteve recentemente em Pequim, e houve reafirmação de compromissos bilaterais e nenhum sinal de tensão comercial ou política. Ao contrário: o tom é de cooperação e expansão de investimentos. Ou seja: não se trata de retaliação, mas de precaução sanitária.
- QUEM GANHA COM ISSO?
- Concorrentes como Tailândia, Argentina e Estados Unidos, que já exportam carne de frango à China e têm estoques prontos.
- Distribuidores locais chineses, que poderão barganhar melhores preços com fornecedores alternativos.
- E, paradoxalmente, as próprias autoridades sanitárias brasileiras, que agora terão uma oportunidade — sob pressão — para mostrar competência técnica, transparência e eficiência em contenção do surto.
- COMO O BRASIL PODE AGIR
- Restrições localizadas: A primeira medida deve ser isolar geograficamente os focos da doença e garantir que a suspensão seja restrita a frigoríficos ou estados afetados — e não ao país inteiro.
- Reação técnica, não política: É hora do MAPA (Ministério da Agricultura) e dos adidos agrícolas em Pequim entrarem em ação. Mais técnica, menos nota diplomática.
- Gestão de riscos reputacionais: O que está em jogo não é apenas a venda para a China — é a confiança global na rastreabilidade da proteína brasileira.
- Plano B: O Brasil precisa aproveitar para diversificar clientes. Oriente Médio, Sudeste Asiático e África oferecem oportunidades imediatas.
- O RISCO MAIOR NÃO É A CHINA. É O EFEITO DOMINÓ
Se países como Japão, Coreia do Sul ou Arábia Saudita seguirem o mesmo caminho, o problema pode deixar de ser episódico e se tornar estrutural. A doença passa — mas o prejuízo reputacional pode permanecer.
CONCLUSÃO
Não há crise diplomática. Mas há, sim, um teste de maturidade sanitária e estratégica.
O Brasil seguirá sendo potência agroexportadora. Mas a confiança do mundo depende de rapidez, transparência e profissionalismo.
A carne é forte. Mas o que sustenta o mercado é a credibilidade.
*Emanuel Pessoa é advogado especializado em Direito Empresarial, Mestre em Direito pela Harvard Law School, Doutor em Direito Econômico pela USP e Professor da China Foreign Affairs University, onde treina a próxima geração de diplomatas chineses.


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