Por Patrícia Rondon Gallina
Muito tem se falado sobre a pandemia: mortes, políticas de saúde pública, profissões essenciais, fake news, medicamentos e vacinas em testes; assuntos esses de extrema importância num momento em que o mundo aprende a reviver.
Mas talvez falte falar mais sobre as pessoas! Seus medos, incertezas, inseguranças e como essa onda gigante chamada pandemia de Coronavírus vem afetando o bem-estar de seres humanos saudáveis.
Todos sabemos o mau físico que esta doença está causando, febre, tosse seca, cansaço, perda de paladar ou olfato e dificuldades respiratórias. Mas além destes, temos sintomas que não estão sendo diagnosticados como o estresse, depressão, crises de pânico, ansiedade, alterações no sono, queda de cabelos, azia e desconfortos abdominais, pessoas aparentemente saudáveis que estão lidando com crises internas, resultado das proporções astronômicas que o vírus está causando em nossas vidas.
Sabemos que é necessário reinventar o jeito de viver, mas como?
Tivemos que mudar nossa rotina, aprender um novo modo de trabalhar seja em casa no modelo home office ou então tomando cuidados que talvez nunca tenham sido parte da nossa preocupação de trabalho. As crianças não estão mais na escola, é necessário reformular a rotina para que elas brinquem e se desenvolvam ao mesmo tempo. Como explicar aos pequenos que eles não podem brincar com os coleguinhas da escola como antes?
Nós aprendemos que não dá mais para sair na rua sem preocupação, para as tarefas básicas como supermercado, banco e farmácias já sabemos que máscara e álcool 70% são acessórios indispensáveis. Os momentos de lazer em família e com os amigos, passeios no parque e praia, deixaram de existir temporariamente.
Enquanto a ciência não vence o vírus, nós precisamos usar o conhecimento que ela já nos trouxe sobre o nosso organismo para viver estes dias difíceis da melhor forma possível, procurando encontrar um ponto de equilíbrio interno.
O isolamento atingiu em cheio nosso sistema hormonal de recompensas. O chamado quarteto da felicidade formado por hormônios que nos dão a sensação de prazer e bem-estar, foi diretamente afetado pela falta de convívio com quem amamos, vídeo-chamadas não são capazes de substituir o toque, as séries de TV não são mais as distrações que procuramos, queremos sair e viver intensamente a vida que descobrimos ser melhor do que nós conseguíamos nos lembrar.
Nossas ações resultam em liberação de hormônios e neurotransmissores distintos no nosso organismo que são responsáveis pelo “estado de espirito”, são eles que irão nos dar sensações de felicidade ou medo, e angustia, por exemplo.
Os neurotransmissores dopamina e serotonina são responsáveis por processos motivacionais, nos impulsionam a alcançar objetivos e também promovem a sensação de prazer e bem-estar. Quando os níveis de serotonina estão baixos, temos a sensação de irritação e mau humor, a longo prazo pode até mesmo desencadear quadros depressivos. A ocitocina, também conhecida como hormônio do amor, é responsável pela sensação de confiança e é extremamente importante nos laços de relacionamentos entre as pessoas. A endorfina age como um anestésico, auxiliando a amenizar situações de dificuldade, dor e estresse.
Quando fazemos coisas que nós gostamos, este sistema de recompensas é automaticamente ativado, momentos em família, reuniões com os amigos, festas, passeios ao shopping, parques, bares e restaurantes são capazes de liberar esses hormônios, mas com as restrições, fomos privados dessas atividades e os hormônios do “bem” foram substituídos pelo cortisol, hormônio associado ao estresse.
A todo momento acionamos gatilhos capazes de liberar cortisol, o simples fato de não poder sair ou ver as pessoas com quem costumávamos conviver com frequência aliados as notícias desfavoráveis já nos inundam de sentimentos ruins.
Qual seria a solução para reverter esse quadro?
1 – Redescobrir coisas que podem ativar a liberação dessas substâncias químicas que trazem a sensação de bem-estar ao corpo.
2 – Para a liberação de endorfina, pesquisadores apontam dançar e cantar como a solução.
3 – Assistir filmes tristes também pode aumentar a sua tolerância a dor.
4 – Para aumentar os níveis de serotonina, você pode dedicar um tempo a se recordar de momentos felizes com a família e amigos, rever fotos de momentos alegres ou ainda receber massagens, tomar sol ou praticar exercícios aeróbicos.
5 – A dopamina nos faz vibrar com pequenas e grandes conquistas, a melhor forma de acioná-la é estabelecer pequenas metas e trabalhar para alcançar seus objetivos, então aprender coisas novas ou finalmente fazer aquilo que vem planejando há bastante tempo será um bom gatilho.
6 – A ocitocina é o hormônio mais afetado na quarentena, pois está diretamente relacionado com relações afetivas e com o toque, mas ainda pode ser despertado praticando doações ou promovendo ações que ajudem o próximo, ações que por sinal são muito bem-vindas em momentos difíceis como o que estamos vivendo.
Quando o isolamento acabar você irá descobrir que durante este período fez muito mais do que se proteger do vírus, você aprendeu como desenvolver a sua melhor versão, aquela resiliente e capaz de se adaptar às dificuldades!
Sobre a autora:
Patrícia Rondon Gallina é farmacêutica e professora do Centro Universitário Internacional Uninter.
Matéria: Ana Paula Scorsin/ Página 1 Comunicação


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