A prevenção ao suicídio vai além das campanhas realizadas durante o Setembro Amarelo. Identificar mudanças persistentes de comportamento, isolamento, desesperança e outros sinais de sofrimento pode ajudar familiares, amigos, escolas e ambientes de trabalho a buscar apoio antes que uma situação se agrave.
O suicídio é um fenômeno complexo, relacionado a diferentes fatores emocionais, sociais, familiares, econômicos e de saúde. No Brasil, a Lei nº 15.199, de 2025, instituiu oficialmente a campanha Setembro Amarelo e estabeleceu 10 de setembro como Dia Nacional de Prevenção do Suicídio.
Dados do Ministério da Saúde apontam que 15.507 pessoas morreram por suicídio no Brasil em 2021. Do total, 77,8% eram homens. No mundo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 720 mil pessoas morram por suicídio todos os anos.
Para a psicóloga e neuropsicóloga Luanda Rosa, é importante combater a ideia de que falar sobre suicídio incentiva a prática. Segundo ela, uma conversa responsável pode facilitar o acesso à ajuda.
“Falar sobre prevenção de forma responsável não incentiva o suicídio; ao contrário, pode abrir uma porta para a escuta e para o cuidado. Também não existe um sinal isolado capaz de prever uma crise. O que exige atenção é a combinação de mudanças persistentes, sofrimento intenso, isolamento, desesperança e perda de funcionamento na vida cotidiana”, afirma.
Sinais que merecem atenção
Tristeza ou uma alteração pontual de humor não significam, por si só, risco de suicídio. No entanto, mudanças persistentes no comportamento devem ser observadas, principalmente quando vários sinais aparecem ao mesmo tempo.
Entre eles estão:
- Falas sobre morrer, desaparecer ou não aguentar mais;
- sensação de desesperança, culpa intensa ou de ser um peso para outras pessoas;
- isolamento e afastamento de familiares, amigos, escola ou trabalho;
- mudanças marcantes de humor, irritabilidade, agitação ou apatia;
- perda de interesse por atividades que antes eram importantes;
- alterações persistentes no sono, apetite ou energia;
- aumento do consumo de álcool ou outras drogas;
- queda repentina no desempenho, autocuidado ou participação social;
- despedidas incomuns, entrega de pertences ou resolução repentina de pendências.
A presença desses sinais não significa necessariamente que uma pessoa pretende tirar a própria vida. Porém, diante de sofrimento intenso ou mudanças importantes no comportamento, a recomendação é procurar ajuda.
“Em vez de interpretar o sofrimento como drama, fraqueza ou manipulação, familiares e colegas precisam perguntar com cuidado: ‘Você está em segurança?’, ‘Você tem pensado em se machucar ou em morrer?’, ‘Como posso ajudar você a buscar atendimento?’”, orienta Luanda.
Como ajudar
A conversa deve ocorrer em um ambiente reservado e sem julgamentos. Ouvir com atenção, demonstrar disponibilidade e incentivar a busca por atendimento especializado são algumas das atitudes recomendadas.
Quando houver risco imediato, a pessoa não deve ficar sozinha. Também é importante buscar ajuda de familiares ou pessoas de confiança e procurar um serviço de emergência.
No Sistema Único de Saúde (SUS), as Unidades Básicas de Saúde (UBS) e os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são portas de entrada para atendimento em saúde mental. Em situações de emergência, é possível procurar uma UPA, pronto-socorro ou hospital, ou acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), pelo número 192.
O Centro de Valorização da Vida (CVV) também oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia.
Escola e trabalho
A prevenção também envolve escolas, empresas e outros espaços de convivência. Situações como bullying, exclusão, humilhação, sobrecarga e isolamento podem agravar o sofrimento e precisam ser observadas.
“Uma instituição não precisa se transformar em serviço de saúde para colaborar com a prevenção. Ela precisa construir uma cultura em que o sofrimento não seja tratado como falha de caráter. Isso inclui acolher mudanças de comportamento, evitar exposição pública, oferecer espaços de conversa e encaminhar para a rede de cuidado quando necessário”, afirma a neuropsicóloga.
No ambiente escolar, mudanças no rendimento, faltas frequentes e afastamento do convívio podem indicar que o estudante precisa de atenção. No trabalho, isolamento, exaustão, faltas recorrentes e alterações bruscas de produtividade também podem justificar uma abordagem cuidadosa.
Atenção às pessoas neurodivergentes
Luanda Rosa também destaca a importância de um cuidado individualizado com pessoas autistas e outras pessoas neurodivergentes. Segundo ela, dificuldades de comunicação, sobrecarga sensorial, rejeição, bullying e exaustão provocada pela necessidade de adaptação social podem contribuir para situações de sofrimento.
“Não é o autismo que explica sozinho uma crise. É preciso considerar a história daquela pessoa, possíveis transtornos associados, vivências de bullying e exclusão, demandas sensoriais, comunicação, autonomia, rede de apoio e acesso a profissionais que compreendam seu modo de funcionamento”, explica.
A especialista ressalta que, nesses casos, sinais de sofrimento podem aparecer como aumento de crises, retraimento, irritabilidade, piora do sono, mudanças de rotina, abandono de interesses, queda de autonomia ou redução da comunicação.
Prevenção começa antes da emergência
Para a neuropsicóloga, não é necessário esperar uma tentativa de suicídio ou uma declaração explícita para procurar ajuda. Mudanças persistentes, sofrimento intenso e afastamento da rotina podem justificar uma intervenção.
“Não é preciso esperar uma frase explícita ou uma tentativa para levar o sofrimento a sério. Mudanças persistentes, perda de esperança e afastamento da vida cotidiana já justificam o cuidado. Procurar ajuda não é um exagero; é uma medida de proteção”, conclui Luanda Rosa.
Onde buscar ajuda
CVV: telefone 188, gratuito, sigiloso e disponível 24 horas.
SUS: Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
Emergência: Samu pelo 192 ou UPA, pronto-socorro e hospitais.
Com informações da Tinteiro Assessoria de Imprensa.
Texto adaptado por Hélio Alves / Tribuna do Recôncavo.













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