A cada nova temporada, milhões de brasileiros interrompem a rotina para acompanhar brigas, alianças, eliminações e reviravoltas dentro de casas monitoradas 24 horas por dia. O fenômeno dos reality shows no Brasil — do Big Brother Brasil a formatos culinários, de relacionamento e de sobrevivência — ultrapassa a fronteira do entretenimento e se consolida como objeto de interesse da Psiquiatria por seu potencial de revelar comportamentos humanos.
‘O que vemos nesses programas é um espelho amplificado da dinâmica social. As pessoas não assistem apenas por curiosidade: elas se identificam, projetam emoções e, muitas vezes, reelaboram seus próprios conflitos a partir daquilo que veem’, afirma o psiquiatra Kalil Duailibi, direito do curso de Medicina da Universidade Santo Amaro (UNISA) e presidente do Departamento Científico de Psiquiatria da Associação Paulista de Medicina (APM).
Confinamento: uma experiência emocional em alta tensão
O confinamento — peça central de formatos como o BBB — cria um ambiente de pressão psicológica difícil de reproduzir fora das telas. A privação de contato com o mundo externo, a ausência de privacidade e a convivência forçada com desconhecidos desencadeiam reações emocionais intensas e aceleradas.
‘Dentro de uma casa confinada, o participante perde referências externas e precisa se reorganizar emocionalmente em tempo real, diante de câmeras e de uma audiência que o julga a cada movimento. Isso gera um estado de hipervigilância permanente, que é revelador — e potencialmente desgastante’, explica Duailibi.
Relatórios recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS), Mental Health and COVID-19: Early evidence of the pandemic’s impact, apontam que o isolamento social foi responsável por um aumento de 25% nos casos de ansiedade e depressão durante a pandemia. Para especialistas, essa experiência coletiva ajuda a contextualizar o interesse do público brasileiro pelo comportamento de pessoas submetidas ao confinamento.
Segundo Duailibi, a forte sociabilidade brasileira também potencializa o apelo do formato. ‘Somos um povo que narra e que gosta de acompanhar histórias. O reality show funciona como uma novela da vida real, com personagens verdadeiros, finais imprevisíveis e a sensação de que o público pode interferir no destino dos participantes pelo voto.’
Mocinhos, vilões e o julgamento moral que ultrapassa a TV
A construção de narrativas baseadas em ‘mocinhos’ e ‘vilões’ é outro componente que mobiliza a audiência. Para o psiquiatra, quando o espectador escolhe quem eliminar ou defender, ele participa de um julgamento moral com raízes profundas na psicologia social.
‘O problema surge quando esse modo de enxergar o mundo — baseado em extremos e simplificações — começa a influenciar a forma como as pessoas lidam com conflitos reais, seja no trabalho, em casa ou nas redes sociais’, alerta o psiquiatra.
Duailibi destaca que o debate não busca demonizar o entretenimento. ‘Reality shows podem abrir espaço para discussões importantes sobre convivência, diversidade e comportamento humano. O alerta é sobre o risco de que a lógica do espetáculo distorça nossa percepção da realidade’, conclui o médico.
Dr. Kalil Duailibi é psiquiatra, diretor do curso de Medicina da Universidade Santo Amaro (UNISA), presidente do Departamento Científico de Psiquiatria da Associação Paulista de Medicina (APM) e professor titular de Psicopatologia no Instituto de Psiquiatria da Infância e Adolescência de São Paulo.
Geninha Morares/ Universidade Santo Amaro (Unisa)














Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil


























































































