A inteligência artificial (IA) pode reduzir em até 96% o tempo necessário para algumas atividades, mas a expansão da tecnologia também aumenta os desafios relacionados a erros, segurança, fraudes e responsabilidade. Os impactos foram discutidos pelo professor e fundador do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio), Ronaldo Lemos, durante o Congresso Internacional Planejar 2026, realizado nesta quinta-feira (17), em São Paulo.
Durante o painel, mediado por Guilherme Wertheimer, presidente do Conselho de Administração da Planejar, Lemos abordou a evolução dos modelos de IA, o avanço dos agentes capazes de executar tarefas e as mudanças provocadas pela tecnologia na rotina de empresas e profissionais.
Segundo o especialista, empresas do setor passaram a tratar a inteligência artificial como uma nova infraestrutura, em uma transformação que guarda semelhanças com a expansão da eletricidade e da internet. Com a incorporação da IA a diferentes atividades, a indisponibilidade desses sistemas pode passar a afetar diretamente a execução do trabalho.
Agentes de IA mudam relação com o trabalho
Um dos principais pontos apresentados por Lemos foi o avanço dos agentes de inteligência artificial. Diferentemente dos sistemas que apenas respondem a comandos, eles podem executar tarefas em sequência e realizar atividades mais complexas.
Nesse cenário, o profissional passa a assumir uma função de coordenação, acompanhando o trabalho realizado pelos diferentes agentes. Lemos comparou esse papel ao de um maestro, que organiza e supervisiona diferentes etapas.
Entre as habilidades apontadas pelo especialista como importantes nesse novo ambiente estão comunicação, decomposição de problemas, documentação, gestão de memória e capacidade de orquestrar agentes. Atenção, organização, adaptabilidade e ética também foram destacadas.
“Quem tem um fundamento de ação ética, usa IA também melhor”, afirmou Lemos.
Ganhos de produtividade vêm acompanhados de riscos
Para demonstrar os efeitos da tecnologia no setor corporativo, Lemos citou o JPMorgan, que investiu cerca de US$ 20 bilhões em inteligência artificial para seus 240 mil funcionários.
Segundo o relato apresentado pelo especialista, executivos da instituição afirmam que a tecnologia reduziu em até 96% o tempo de execução de determinadas atividades, resultado que teria contribuído para compensar o investimento inicial.
Lemos também citou o Goldman Sachs, que direcionou a IA principalmente para o desenvolvimento autônomo de códigos e softwares.
Os exemplos, porém, foram apresentados ao lado de casos que mostram os riscos de uma implementação sem controle adequado.
A fintech holandesa Klarna foi citada pelo especialista como um exemplo. Segundo o relato feito durante o congresso, a empresa reduziu parte significativa da equipe ao apostar na substituição de trabalhadores por IA, mas posteriormente precisou recontratar profissionais diante de problemas operacionais.
Outro caso mencionado foi o da Air Canada. Lemos citou uma decisão judicial envolvendo informações incorretas fornecidas pelo chatbot da companhia, destacando a discussão sobre a responsabilidade das empresas pelas respostas produzidas por sistemas de IA.
Erros podem ter impacto financeiro
Lemos também mencionou a parceria entre McDonald’s e IBM para utilização de inteligência artificial em atendimentos de drive-thru. O projeto foi posteriormente descontinuado após problemas recorrentes nos pedidos.
O especialista chamou atenção para o impacto de pequenas taxas de erro em operações que exigem elevada precisão.
“Uma taxa de 85% de acerto parece alta, mas significa que 1 a cada 7 pedidos vem errado”, afirmou.
Para Lemos, em áreas como o setor financeiro e bancário, a margem de erro precisa ser muito menor devido ao impacto que decisões incorretas podem produzir.
Deepfakes aumentam preocupação com fraudes
A segurança foi outro ponto central da apresentação. Lemos citou o caso da empresa britânica Arup, em Hong Kong, em que um funcionário teria sido enganado durante uma videoconferência com imagens e vozes produzidas por inteligência artificial.
Segundo o relato apresentado no congresso, o funcionário transferiu US$ 26 milhões após acreditar que participava de uma reunião com executivos da empresa. As pessoas presentes na chamada seriam, na realidade, clones digitais produzidos com recursos de deepfake.
O episódio foi apresentado como exemplo da sofisticação que os golpes podem alcançar com o avanço da inteligência artificial.
Governança acompanha avanço da tecnologia
Para Lemos, a expansão da IA exige que empresas desenvolvam mecanismos de controle, verificação e governança capazes de acompanhar a velocidade de adoção da tecnologia.
“Ficar parado não é uma opção, mas não dá para adotar inteligência artificial sem governança”, afirmou.
Além dos ganhos de produtividade, a utilização de agentes de IA passa a exigir atenção para questões como responsabilidade, segurança, ética e acompanhamento dos resultados produzidos pelos sistemas.
Com informações da Planejar. Texto adaptado por Hélio Alves / Tribuna do Recôncavo.

























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