Por Luciano Ferreira Lima – Advogado e Gestor de Projetos Políticos
Influenciadas por fatores diversos, as atitudes humanas resultam, principalmente, das crenças, dos valores, da cognição, da percepção e da motivação de cada indivíduo no seu dia a dia.
Compreender essa dinâmica interativa e interdependente entre as pessoas e o contexto social no qual elas estão inseridas é a principal tarefa da Psicologia Política.
Mais que uma disciplina acadêmica, ligada às ciências humanas, a Psicologia Política articula diferentes áreas do conhecimento, como: Antropologia, Filosofia, Psicologia Social, Direito e Ciência Política.
Essa interdisciplinaridade caracteriza a Psicologia Política, não como uma área de conhecimento, mas como um tema de estudo, baseado na compreensão dos fenômenos políticos.
Para essa compreensão da realidade social e de seus fenômenos, temas como racismo, saúde pública, participação social, xenofobia e relações de poder articulados a aspectos subjetivos, são objetos de interesse da Psicologia Política.
No campo das relações de poder, investiga-se, por exemplo, o processo de fortalecimento das divisões sociais em nosso país. Onde, especialmente no campo político e eleitoral, o outro é visto como um inimigo a ser destruído.
Articulando demandas sociais específicas, com o modo como as pessoas se definem, esses grupos estabelecem posições altamente antagônicas e intensamente reativas. Uns para com os outros.
O processo de fortalecimento, de identificação e de alimentação das posições políticas e ideológicas desses grupos, resulta de uma forte campanha midiática, pessoal e institucional. Tendo no marketing político, sua principal ferramenta de intensificação e radicalização.
Tomemos como exemplo algumas eleições pretéritas e as distinções entre direita e esquerda.
Realizadas num contexto de disputas mais programáticas, as eleições imediatamente anteriores a de 2018, com seus principais protagonistas, PT e PSDB, ocorreram em um cenário de confronto mais racional.
Despindo-se, o ex-presidente Lula, da pecha de radical, que passou a apostar na força dos programas sociais; em confronto com um PSDB, que mitigava o seu discurso de modelo econômico de prevalência do setor privado sobre o setor público. Essas remodelagens, embora atendessem às demandas específicas de determinados grupos sociais, não apresentavam forças ou ideias altamente antagônicas. Tampouco posições radicais.
Ademais, grosso modo, o social-liberalismo – como sistema capaz de direcionar a presença estatal para a área social e para a regulação do sistema financeiro, facilitando a livre concorrência. Se apresentava como o caminho do meio.
Naquele contexto, trabalhadores e empresários, representados por PT e PSDB, disputavam o poder institucional. Todavia, a existência de um era justificada pela necessária presença do outro na estrutura social.
Havia ali, uma polarização não radical e não belicosa. Um fenômeno político, cujo estudo mereceria ainda mais aprofundamento; fosse ele o objeto principal desse texto.
As eleições de 2018, resgataram um confronto histórico, que se estabeleceu pela ideia de esquerda e direita. Pelo confronto entre comunistas e conservadores; entre militares e militantes.
Neste caminho, o ponto inicial de confronto foi a defesa, pelo então candidato à presidência da república, Jair Bolsonaro, do rompimento institucional efetivado pelos militares em 31 de março de 1964; já que a criminalização desse evento era uma bandeira histórica da esquerda.
A partir de então, estabeleceu-se uma polarização radical, entre a esquerda – antes revolucionária – hoje reformista, e a direita conservadora, que foi se extremando com o discurso e as posições do atual presidente.
Conclui-se nesta parte, que a esquerda, para se firmar na dualidade e no referenciamento de oposição natural ao bolsonarismo, radicalizou o seu discurso e iniciou uma série de rotulações contra seu principal adversário: fascista, genocida, homofóbico etc.
Esse confronto levou a direita, a um ativismo politico. O que alimentou ainda mais o radicalismo e contribuiu para um cenário de manifestações politicas protagonizadas por ambos os grupos radicais.
A compreensão desse radicalismo político, passa pela análise do comportamento humano, sob a ótica da Psicologia Política. Fazendo-se necessário investigar os fatores que contribuem para essas posições políticas e sociais.
A existência dos fatores comuns que influenciam o pensamento dos eleitores que ocupam ambos os lados extremos, no aspecto político, como: o dogmatismo, o sentimento de pertencimento, aversão ao diferente e a agressividade ou empatia; merece aqui uma delicada abordagem.
O dogmatismo no radicalismo político se caracteriza pela existência de somente uma verdade e que tudo que se encontra fora dela está errado. Suas origens podem estar fundadas em fatores como: as limitações intelectuais, onde os indivíduos que não conseguem lidar com problemas complexos, buscam soluções fáceis.
Assim também ocorre quando o problema é relativo ou apresenta variações, graduações, tem prós e contras. Como não conseguem acompanhá-lo, os indivíduos optam por evitá-los, preferindo o dogmatismo, não correndo, com isso, o risco de demonstrar dissonância cognitiva. Que ocorre quando uma pessoa tem crenças, ideias ou valores contraditórios.
Outra característica do indivíduo dogmático é a ansiedade que leva a prática de ações rápidas e concretas, sem muita reflexão ou ponderação. Aderindo, desse modo a uma posição mais prática e mais resolutiva, para aquele momento ou situação.
A rigidez na criação é um dos fatores que pode levar a radicalização política. Assim, os comportamentos praticados ou exigidos pelos grupos sociais a qual pertenceu ou pertence, podem ser fatores de aversão ou autoculpalização do indivíduo.
Os transtornos psicológicos também podem levar a radicalização política, pois muitos indivíduos conseguem estabilizar o seu quadro neurológico com a adesão a crenças dogmáticas. Muitas vezes assumidas, por eles, como sagradas.
Essas pessoas podem adotar um radicalismo muito extremado e muito perigoso, chegando ao ponto de, muitas vezes, cometerem atentados e outros crimes em nome desse radicalismo.
A necessidade de pertencimento, pode decorrer da necessidade de autofortalecimento, que ocorre quando alguém, estando fora de um determinado grupo social, sente-se enfraquecido.
Ao aderir ao grupo, o sentimento de irmandade, de fraternidade e de solidariedade leva a uma pseudovalorização pessoal e por consequência à um fortalecimento individual, pois suas fraquezas são mitigadas pela sua associação às ideias e a posições fortes e radicais, dentro de um discurso e de ações coletivizadas.
Indivíduos violentos, encontram na polarização política um contexto aparentemente legítimo para manifestarem sua agressividade. Com essa agressividade o indivíduo sente-se um membro importante e honrado do grupo.
Na aversão ao diferente, aquele que não faz parte do seu grupo e não compartilha das mesmas crenças – ao contrário de ser visto como adversário político, ideológico ou esportivo – é automaticamente enquadrado pelo indivíduo, como inimigo.
Essa rotulação pode ser definida: pela cor da pele, pela origem étnica, pela orientação religiosa, sexual, política, ideológica, pelo time de futebol, pelo partido político etc.
Fatores como a genética, ou o acúmulo de frustrações, também podem levar a agressividade na polarização política.
A presença da radicalização política altera o ambiente democrático, tornando-o mais complexo, pois o outro é visto como um inimigo que precisa ser eliminado. Não havendo possibilidade de conciliação programática ou pragmática.
Aqui, ambos os grupos acreditam que a conquista do poder pelo outro, pode levar à destruição da sociedade. Pelo que se apressaram em se apresentarem como aquele que vai proteger essa sociedade. Essa proteção passa então pela ideia de destruição desse inimigo.
Essa necessidade de “destruição do mal”, eleva o nível de intolerância política e social; produzindo um cenário de intensificação dos discursos antagônicos, que pode levar a uma guerra civil.
Embora seja um fenômeno crescente, a polarização política pode ser mitigada ou erradicada, a partir de diálogos ou trabalhos conjuntos, fora do meio conflituoso, onde se possa perceber semelhanças, desejos e necessidades comuns. Utilizando-se para tanto, as estratégias da Psicologia Política.
Fazer parte de um mesmo grupo social, cuja presença não importa as posições divergentes, pode demonstrar a possibilidade de se construir um caminho conjuntamente. Até porque, é possível que, apesar de, dogmaticamente, estarmos divergindo, podemos estar torcendo pelo mesmo time ou professando a mesma fé religiosa.
Assim como fizemos várias vezes, com fé e da torcida, pelo fim da pandemia do Covid 19, cujas lagrimas não escolheram e não acolheram dogmas.
Até lá.
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Obrigado!
*Luciano Ferreira Lima
Consultor e Gestor de Projetos Políticos, Mestrando em Ciência
Política, Advogado, Professor Universitário e Articulista.
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