O Ibovespa, principal índice da bolsa de valores de São Paulo, a B3, fechou em forte queda nesta quinta-feira, dia 23, com investidores acompanhando os novos episódios de tensão entre governo federal e Banco Central e repercutindo a decisão de juros no Brasil e nos Estados Unidos.
O índice caiu 2,29%, aos 97.926 pontos. Foi a primeira vez desde julho de 2022 que o Ibovespa encerrou o pregão abaixo dos 100 mil pontos.
Na véspera, o Ibovespa teve queda de 0,77%, aos 100.221 pontos. Com o resultado de hoje, o índice passou a acumular perdas de 6,68% no mês e de 10,76% no ano.
Os resultados de juros, tanto nos EUA como no Brasil, vieram dentro das expectativas de mercado. O Fed divulgou nesta quarta-feira a decisão de elevar em 0,25 ponto percentual a taxa de juros dos EUA, para uma faixa de 4,75% a 5%.
Na divulgação, o Fed citou a turbulência que atingiu o sistema bancário norte-americano, com a quebra dos bancos médios Silicon Valley Bank e Signature Bank, além da crise enfrentada pelo First Republic Bank, que recebeu socorro bilionário de outros 11 bancos.
Havia dúvidas de que o Fed poderia interromper a alta de juros por conta das complicações causadas ao setor bancário. O Comitê Federal de Mercado Abeto (Fomc, na sigla em inglês), porém, reconheceu que o crédito deve ficar mais restrito no país e disse estar vigilante à questão.
“O sistema bancário dos EUA é sólido e resiliente. Acontecimentos recentes devem resultar em condições de crédito mais restritivas para famílias e empresas e pesar na atividade econômica, nas contratações e na inflação. A extensão desses efeitos é incerta. O Comitê permanece altamente atento aos riscos de inflação”, disse o comunicado do banco central norte-americano.
Sobre a inflação, foco da decisão, o Fed destacou que os preços seguem elevados, com emprego em alta e em “ritmo robusto”. O Federal Reserve sinalizou ainda que pode seguir com o arrocho monetário nas próximas decisões sobre os juros.
“O Comitê antecipa que algum endurecimento adicional da política pode ser apropriado para atingir uma postura de política monetária que seja suficientemente restritiva para retornar a inflação para 2% ao longo do tempo”, continuou o comunicado.
No Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu manter a taxa básica de juros, a Selic, em 13,75% ao ano, também sem surpresa. A decisão se deu em meio a turbulências no sistema bancário global e a críticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de ministros do governo ao atual nível da taxa de juros.
Em nota emitida após reunião, o Comitê afirmou que, embora a reoneração dos combustíveis tenha reduzido a incerteza dos resultados fiscais de curto prazo, ainda permanecem alguns fatores de risco para o cenário inflacionário.
São eles: a maior persistência das pressões inflacionárias globais, a incerteza sobre o arcabouço fiscal e seus impactos sobre as expectativas para a trajetória da dívida pública e uma desancoragem maior, ou mais duradoura, das expectativas de inflação para prazos mais longos.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), reagiu: “Eu considerei o comunicado preocupante, muito preocupante, porque hoje divulgamos relatório bimestral mostrando que nossas projeções de janeiro estão se confirmando sobre as contas públicas”, afirmou o ministro.
Na tarde desta sexta-feira, dia 24, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também comentou a decisão. Para ele, não há explicação para que a taxa básica de juros da economia esteja em 13,75% ao ano no Brasil. O presidente ainda acusou Campos Neto de não cumprir a lei que concedeu autonomia ao BC.
Para economistas, o comunicado do Copom foi mais duro do que o esperado e trouxe alguns recados importantes a serem considerados pelo mercado para a trajetória da Selic: Incertezas fiscais ainda pairam sobre o país; Houve aumento das expectativas de inflação para 2023 e 2024; Não há perspectiva de corte de juros; A conjuntura internacional é monitorada.
Segundo o economista Rodrigo Jolig, co-CEO e diretor de investimentos na Alphatree Capital, já há uma leitura no mercado de que os bancos centrais pelo mundo estão adotando um tom mais suave, enquanto o brasileiro segue uma postura muito rígida.
Para Jolig, o posicionamento do BC colaborou com impactos negativos no dólar e na bolsa. O economista também destaca que a política monetária mundial de aperto de juros já começou a fazer efeito.
“O empresariado está sentindo que um juro a quase 14% inviabiliza muita coisa. Então, terminamos o dia com esse tom de aversão a risco não só no Brasil – o que foi causado pelo Banco Central –, mas também a nível mundial, considerando as preocupações bancárias”, diz.
No Ibovespa, o principal impacto ficou com as ações mais cíclicas da bolsa (que acompanham os ciclos econômicos). Quando os juros sobem, normalmente as companhias que possuem capital aberto e precisam de bastante fluxo de caixa ficam prejudicadas, esclarece o economista Bruno Mori, sócio-fundador da consultoria Sarfin.
“O custo do capital fica mais alto e espreme as margens de lucro. Assim, o mercado precifica uma lucratividade futura mais baixa. A conta é feita a partir de uma provável distribuição de futuros dividendos”, diz. “Então, ao invés de comprar ações com expectativas de receber bons dividendos, o que o mercado faz de maneira geral é vender ações e comprar títulos de renda fixa.”
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