Por Célio Martins – especialista em logistica.
A logística brasileira está ficando menos concentrada, mais pulverizada e muito mais dependente de inteligência operacional. Em um país em que o transporte rodoviário ainda responde por cerca de 65% da movimentação de cargas, a pressão por eficiência passou a deslocar o foco do setor: menos caminhão rodando vazio, mais compartilhamento de capacidade, mais redespacho e mais relevância para a carga fracionada.
Esse movimento vem sendo impulsionado por uma combinação de fatores: crescimento do e-commerce, interiorização do consumo, avanço das pequenas e médias empresas no digital e maior necessidade de capilaridade logística. Em 2025, por exemplo, as PMEs lideraram a expansão do comércio eletrônico brasileiro, ampliando a necessidade de entregas mais frequentes, em menores volumes e para uma malha geográfica mais distribuída.
Nesse contexto, a carga fracionada, modelo em que diferentes embarcadores compartilham o mesmo caminhão para transportar mercadorias com destinos variados, deixou de ser apenas uma solução operacional e passou a ter papel estratégico. Mais do que reduzir ociosidade, ela responde a uma transformação mais profunda da logística nacional.
‘O Brasil logístico está cada vez menos concentrado nos grandes eixos tradicionais. A demanda cresceu em volume, mas também se espalhou mais. E isso favorece modelos mais inteligentes, como a carga fracionada e o redespacho’, afirma Célio Martins, gerente de novos negócios do Transvias.
Na prática, a lógica é simples: em vez de um único caminhão sair parcialmente vazio para atender apenas um cliente, empresas diferentes compartilham o mesmo espaço de carga. O resultado tende a ser mais eficiência operacional, maior ocupação do veículo e melhor relação entre custo e capilaridade.
Essa lógica também conversa com uma dor antiga do transporte no Brasil: o peso dos custos fixos. Veículo, mão de obra e combustível continuam entre os principais componentes do custo final da operação, e qualquer ganho de ocupação ou melhor planejamento de rota passou a ter impacto direto na competitividade das empresas.
Além disso, a carga fracionada ganhou importância porque atende melhor o comportamento atual do mercado. O varejo opera com estoques mais enxutos, a indústria busca maior flexibilidade de reposição e o e-commerce exige frequência de entrega muito superior à de alguns anos atrás. Tudo isso favorece operações menos concentradas e mais distribuídas.
‘O embarcador hoje quer previsibilidade, não apenas preço. E muitas vezes o modelo compartilhado é o que permite equilibrar prazo, custo e alcance geográfico’, diz Martins.
É nesse ponto que entram plataformas e bases de dados logísticos que ajudam empresas a localizar transportadoras, rotas e soluções adequadas para diferentes perfis de carga. ‘No Transvias, temos percebido um aumento do interesse por operações mais flexíveis e por soluções ligadas a redespacho, fracionado e rotas fora dos grandes centros. Registramos um crescimento de 32% nas consultas relacionadas a fracionado, redespacho e logística compartilhada apenas nos últimos 12 meses’, afirma Martins.
Esse tema deve ganhar ainda mais espaço na Intermodal South America 2026, principal feira de logística da América Latina, que acontece entre os dias 14 e 16 de abril, em São Paulo. Em um momento em que o setor discute produtividade, dados e sustentabilidade, a lógica da ocupação inteligente da frota tende a ganhar centralidade.
Isso porque a discussão sobre eficiência não passa apenas por tecnologia de ponta, mas por algo mais estrutural: usar melhor a capacidade já existente. Em um país continental, com malha desigual e alto custo logístico, compartilhar espaço, combinar rotas e conectar cargas diferentes no mesmo fluxo pode ser uma das respostas mais realistas para aumentar a competitividade.
‘O futuro da logística brasileira não está só em grandes investimentos. Ele também está em operar melhor o que já existe. E a carga fracionada é uma das expressões mais claras disso’, resume Martins.
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