Por: Dr. Antônio Mateus Soares, Sociólogo – Professor da UFRB
O município de Santo Antônio de Jesus está na 10ª posição entre as cidades mais violentas do pais. Os últimos dados do IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, divulgados no Atlas da Violência 2019, apontam que Salvador é a 5º capital mais violenta do Brasil e o Estado da Bahia possui 14 municípios listados entre os mais violentos do pais. A liderança de homicídio na Bahia é disputada entre Simões Filho, com taxa de 119,9 mortes para cada 100 mil habitantes e Porto Seguro, com 101,6 morte para cada 100 mil habitantes. Os dois municípios campeões em mortes, são seguidos por Lauro de Freitas, Camaçari e Eunápolis. Estes municípios fazem parte deste ranking macabro há mais de cincos anos. Além deles aparecem na lista também os municípios de Ilhéus, Jequié, Feira de Santana, Teixeira de Freitas, Santo Antônio de Jesus, Itabuna, Vitória da Conquista, Juazeiro, Alagoinhas, Barreiras e Paulo Afonso.
Neste novo ranqueamento o município de Santo Antônio de Jesus aparece, na 10ª posição, com taxa de 69, 3 homicídios por ano, media maior do que a da capital que é de 63,5. Alguns motivos podem justificar a entrada do município de Santo Antônio de Jesus neste ranqueamento, a exemplo da qualificação do tráfico de drogas e o crescimento de conflito entre facções criminosas, a cidade por ser de polarização comercial e ser cortada pela BR 101, amplia a capacidade de atração da violência urbana.
Na última década o fenômeno da violência na Bahia tem migrado para as cidades do interior, onde o aparato de segurança pública é mais fragilizado pela falta de investimento. Desde a implosão de um caixa bancário ao furto de um aparelho celular, temos entre suas intencionalidades a produção de uma poupança do crime para a economia do tráfico de drogas no Estado, dinamizada por constantes conflitos sangrentos que atinge a população baiana. O tráfico de drogas é sem dúvida o maior vilão da segurança pública brasileira, pois sua organicidade é fecundada nas lacunas deixadas pelo Estado de Direito. Na ausência da lei, da regra e da cidadania a exceção se institui e promove o ilegalismo.
As cidades de médio porte com perfil polarizador são as mais visadas pela economia do crime, sobretudo, aquelas que interagem com maior fluidez entre vias de fugas e topografias íngremes. O município de Simões Filhos atravessado pela BR-324 e pela BA-093, também é conhecida por ser depósito de cadáveres abatidos em outros lugares (área de desova), além desta situação a polarização econômica e os índices de desemprego ampliam a situação de vulnerabilidade. O município de Porto Seguro tem uma economia turística dinâmica, em que os lucros são concentrados em poucas mãos, gerando uma associação perversa entre a economia lúdica do turismo e economia do tráfico, que faz rivalizar o bairro do Baianão na parte mais alta da cidade e o bairro do Campinho nas proximidades do centro.
Mesmo com ações pontuais da Secretaria de Segurança, o acúmulo histórico da violência no Estado da Bahia não foi equacionado, sobretudo para barrar a crescente migração da violência da capital para às cidades do interior. A complexidade em torno da Segurança Pública, não se esgota em aumento de efetivo, melhores salários dos policiais ou investimentos em tecnologias, equipamentos e insumos. Além destas ações básicas é necessário investimentos contínuos na cidadania das pessoas e na qualificação do território ( educação, saúde, lazer e geração de emprego e renda). Não adianta o discurso de uma polícia cidadã participativa, mas que age distante da população e que não respeita os contextos específicos dos territórios (bairros e comunidades). A desigualdade social esfacela algumas comunidades, diluem vínculos identitários e elementos de pertencimento, vulnerabiliza a vida de adolescentes e jovens e os coloca em situação constante de vulnerabilidade em face da cooptação do mundo do crime.
Não há receita para conter a dinâmica do crime organizado e sua interação com a violência urbana. A complexidade em torno da criminalidade a faz um fenômeno de responsabilidade de todos, mas é importante uma ação pública mais contextualizada com os territórios e com a população. O desenvolvimento de políticas intersetorizadas entre às Secretarias de Estado foi iniciado no Programa Pacto pela Vida, mas perdeu força em sua continuidade, segurança se faz com investimentos estruturais associado a ampla participação popular.
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Antonio Mateus Soares – Sociólogo
Doutor em Ciências Sociais
Professor Adjunto da Universidade Federal Recôncavo da Bahia – UFRB
Professor Permanente ao PPGES/UFSB – (Mestrado e Doutorado) Estado e Sociedade
Professor Colaborador do PPG-MPED/UNEB-IV (Mestrado) Educação e Diversidade
Líder do Grupo de Pesquisa (Cnpq): Violência, Território e Direitos Humanos
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