No Dia das Crianças, uma reflexão importante ganha espaço: como pais e responsáveis podem lidar com a curiosidade natural dos filhos em relação ao corpo, ao prazer e às relações? Embora o tema ainda seja envolto em receios e tabu, especialistas reforçam que a educação sexual infantil não significa falar sobre sexo precoce, mas sim sobre respeito, proteção, limites e afeto.
A psicanálise de Freud propôs o conceito das fases do desenvolvimento psicossexual: oral, anal, fálica, latência e genital, que, embora muitas vezes contestadas ou reinterpretadas, ainda ajudam a compreender etapas fundamentais do crescimento infantil.
Para Marcella Jardim (@falaseriotia), sexóloga, educadora sexual, psicanalista e professora de filosofia, conhecer essas fases pode ser um caminho para pais observarem sinais, acolherem curiosidades e evitarem repressões prejudiciais.
As fases e o que observar
Na fase oral (0 a 1 ano), o prazer está concentrado na boca: mamar, chupar, morder. É quando o bebê leva tudo à boca e busca aconchego, contato e vínculo afetivo. O papel dos pais é oferecer segurança e carinho, base para a confiança.
Já na fase anal (1 a 3 anos), o prazer se liga ao controle das fezes, a fase do desfralde. A criança descobre o poder de segurar ou soltar, enquanto explora limites de autonomia. É essencial que os pais respeitem o tempo da criança, sem punições diante de acidentes, transmitindo paciência e acolhimento.
A fase fálica (3 a 6 anos) marca a descoberta das diferenças entre meninos e meninas. Perguntas como de onde vêm os bebês? ou o interesse pelos genitais são comuns. Aqui, a naturalidade é o melhor caminho: usar os nomes corretos das partes do corpo, evitar vergonha e ensinar respeito são atitudes que fortalecem a autoestima da criança.
Na latência (6 a 11 anos), a curiosidade sexual diminui e as energias são direcionadas para escola, amigos e atividades coletivas. É o momento ideal para incentivar esportes, artes e boas relações sociais.
Por fim, a fase genital (a partir da puberdade) retoma os interesses sexuais, mas agora com maturidade afetiva. É nesse momento que conversas sobre consentimento, limites, responsabilidade e respeito se tornam ainda mais urgentes.
Curiosidade não é problema: como reagir sem repressão
Um dos erros mais comuns é associar comportamentos típicos da infância ao universo adulto. Quando uma criança toca os próprios genitais ou pergunta sobre diferenças entre corpos, está apenas se conhecendo. Para Marcella, ‘reagir com susto, vergonha ou bronca pode gerar culpa e medo’. A orientação é responder com calma e verdade, sempre reforçando a noção de privacidade: ‘Esse é o seu corpo, ele é bonito e merece cuidado. Mas existe hora e lugar para explorá-lo, com privacidade, no banheiro, em casa’.
A importância de superar cada fase
Cada etapa tem uma função para o amadurecimento emocional e social. A fase oral constrói confiança; a anal, autonomia; a fálica, identidade; a latência, empatia e socialização; e a genital, afeto e sexualidade saudável.
Quando há repressão ou vergonha excessiva, a criança pode ficar fixada em determinada fase, o que se reflete no futuro em problemas como dificuldade de expressar emoções, ansiedade, insegurança, excesso de controle ou medo do próprio corpo.
Educação sexual começa cedo, e não é sobre sexo
A educação sexual preventiva deve começar desde cedo, ainda na primeira infância, mas em doses adequadas à compreensão da criança. Por volta dos 2 ou 3 anos, já é hora de nomear corretamente as partes do corpo (inclusive íntimas), ensinar que ninguém pode tocar sem consentimento e incentivar a criança a relatar desconfortos.
À medida que crescem, os temas se ampliam: na pré-escola, perguntas sobre diferenças entre meninos e meninas; na infância, conversas sobre privacidade e respeito; na pré-adolescência, diálogos sobre puberdade e redes sociais; e na adolescência, discussões sobre desejo, afetividade, responsabilidade e relacionamentos saudáveis.
Marcella destaca que meninos e meninas merecem a mesma base de respeito e limites, mas é importante considerar suas pressões sociais diferentes: meninas mais cobradas em relação ao corpo e meninos muitas vezes educados a não demonstrarem vulnerabilidade. A equidade no diálogo é essencial.
Pilares da educação sexual infantil
Segundo a especialista, existem cinco pilares fundamentais:
Nomear corretamente as partes do corpo.
Ensinar autonomia corporal: ‘seu corpo é seu’.
Trabalhar consentimento e respeito ao ‘não’.
Ensinar sobre privacidade e limites das partes íntimas.
Cultivar relações de afeto e respeito.
Trata-se de uma educação que fortalece a criança contra abusos e constrói autoestima, longe de qualquer conotação erótica.
Toque bom, toque ruim e segredos
Um recurso prático é ensinar a diferença entre toque bom (abraços e gestos que dão segurança) e toque ruim (os que geram vergonha, medo ou desconforto). A criança deve ser encorajada a dizer não quero, para com isso ou vou contar para um adulto.
Outro ponto é explicar a diferença entre segredos bons, como surpresas, e segredos ruins, aqueles que causam aperto no coração. Se alguém pedir para guardar um segredo que te deixa triste, você precisa contar para um adulto de confiança, reforça Marcella.
O silêncio não educa
Muitos pais têm medo de despertar a sexualidade ao falar sobre o tema, mas a educadora alerta: Essa preocupação não é válida. A criança já nasce com sexualidade, entendida como curiosidade, afeto e descobertas. O que desperta vergonha e medo é o silêncio.
Ao evitar o tema, os pais deixam que a criança aprenda sozinha, e, na maioria das vezes, com fontes incorretas como a internet, colegas ou até pessoas mal-intencionadas.
Apoio para famílias
Para pais que se sentem inseguros, buscar apoio profissional pode ser um bom caminho. Psicólogos, sexólogos e educadores sexuais estão preparados para orientar. O importante é manter o diálogo contínuo. E, se faltar conhecimento, é melhor admitir do que se calar: Não sei agora, mas vamos descobrir juntos? pode ser uma resposta valiosa para construir confiança e parceria.
Educar sexualmente uma criança é, na verdade, educá-la para o respeito, proteção e o autoconhecimento. Não é sobre falar de sexo antes da hora, mas sobre dar linguagem, segurança e afeto em cada fase do crescimento. Neste Dia das Crianças, mais do que presentes ou brinquedos, a melhor forma de cuidar pode ser oferecer diálogo, escuta e acolhimento, bases para um futuro saudável em todas as dimensões.
REFERÊNCIAS:
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12087727/
https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0140197106000431
https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S2451965020300375
FONTE: Marcella Jardim (@falaseriotia), sexóloga, educadora sexual, psicanalista e professora de filosofia.
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