Superação de estigmas e preconceitos ligados à doença também é objetivo da campanha.
Informações do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) indicam que mais de 53% dos habitantes de Salvador estão com excesso de peso e mais de 20% estão obesos. De acordo com o Ministério da Saúde, o número de obesos quase triplicou no Brasil desde 1975, com um aumento de quase cinco vezes entre crianças e adolescentes. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de um quarto da população adulta do país está obesa. Além disso, um estudo recente que avaliou os impactos econômicos do excesso de peso em 161 países apontou que 88% da população brasileira terá sobrepeso ou obesidade até 2060. Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 167 milhões de pessoas em todo o planeta estarão com sobrepeso ou obesidade até 2025.
Na tentativa de conter o avanço desta doença crônica multifatorial progressiva e suas consequências, bem como mudar perspectivas, corrigir equívocos e acabar com estigmas e preconceitos contra pessoas obesas, diversas ações alusivas ao Dia Mundial da Obesidade, celebrado no próximo sábado (4), têm sido realizadas em todo o mundo ao longo desta semana. Com o tema “Mudando as perspectivas: vamos falar sobre obesidade”, a campanha realizada pela World Obesity Federation (WOF) em parceria com a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional Bahia (SBEM-BA) e outras entidades vai além de combater a má alimentação, o sedentarismo, o estresse, a privação do sono e os fatores endócrinos e genéticos que contribuem para o excesso de peso.
“Através de conversas importantes e histórias reais, podemos ajudar as pessoas a reconhecer as várias raízes e dimensões da obesidade e inspirá-las a tomar medidas eficazes para uma saúde melhor”, afirmou a endocrinologista Thaisa Dourado Guedes Trujilho, presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes – Regional Bahia (SBD-BA) e diretora da SBEM-BA.
Embora já não seja mais novidade que a obesidade afeta órgãos como coração, fígado, rins, articulações e sistema reprodutivo, e que o excesso de peso causa uma série de doenças crônicas, tais como diabetes, hipertensão, cardiopatias e acidente vascular cerebral, além de vários tipos de câncer, problemas de saúde mental, infertilidade, esteatose hepática e problemas nas articulações, “a informação continua sendo nossa maior aliada. As pessoas precisam saber que, embora seja um grande desafio, é possível prevenir e combater o excesso de peso e suas consequências”, frisou.
Reeducação alimentar, prática regular de exercícios físicos, controle da ansiedade e adoção de um estilo de vida equilibrado são itens prioritários nas lista de como prevenir e combater a obesidade. Contudo, para algumas pessoas, o uso de medicamentos e até a realização de uma cirurgia bariátrica podem ser necessários no tratamento que, idealmente, deve ser realizado por uma equipe multidisciplinar.
Segundo a endocrinologista Maria de Lourdes Lima, também diretora da SBEM-BA, a obesidade é uma doença crônica, assim como a diabetes e a hipertensão, e deve ser tratada como tal. Resultado de fatores genéticos, individuais, comportamentais e ambientais, ela precisa ser tratada ao longo de toda a vida do paciente e não apenas até o alcance do peso ideal.
“Muitas vezes, o paciente perde peso, mas volta a ganhar, quando não segue com o tratamento. Por isso, é imprescindível utilizar corretamente as medicações, quando indicadas; manter a alimentação equilibrada e, especialmente, a atividade física durante e após o período de emagrecimento. Só assim é possível manter o peso alcançado”, destacou Maria de Lourdes, supervisora da residência em endocrinologia do Hospital Geral Roberto Santos e professora da Escola Bahiana de Medicina, onde coordena um ambulatório multidisciplinar para atendimento a pacientes com obesidade que gera muitas pesquisas na área.

Nas fotos, Luciana Ratis antes e depois
A orientação da especialista também vale para pacientes submetidos à cirurgia bariátrica, como é o caso de Luciana Ratis Lima de Oliveira (44), que tentou vários outros tratamentos até, finalmente, ser operada e se livrar de problemas como hipertensão arterial, colesterol alto, ronco e limitações sociais, entre outros. A administradora, que pesava 120 quilos, se submeteu a uma cirurgia bariátrica em outubro de 2020, faz acompanhamento com terapeuta, nutricionista e cirurgião oncológico – após vencer um câncer de ovário.
“Precisei entender a relação entre as emoções e a comida e continuo atenta a esta questão (…). Passei anos achando que eu era preguiçosa, indolente, inferior. A pandemia de Covid-19 me trouxe muito medo, por fazer parte do grupo de risco, além de revelar que, mesmo com todo acompanhamento, eu não estava conseguindo vencer a obesidade. Decidi fazer a cirurgia e foi a melhor coisa que fiz por mim. Hoje, com o peso corporal adequado à sua altura (83 quilos), faço questão de dizer a quem sofre com a obesidade: peça ajuda, respeite seu processo e seus limites, e busque o melhor caminho, não para caber numa roupa ou para agradar alguém, mas para ter saúde e viver melhor”, declarou Luciana.
Nos últimos cinco anos, 311.850 mil cirurgias bariátricas foram realizadas no Brasil por planos de saúde ou pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Na Bahia, a cirurgia bariátrica é oferecida pelo SUS, no Hospital Universitário Professor Edgard Santos, ou mediante encaminhamento feito para o Hospital da Bahia pelo Centro de Diabetes e Endocrinologia da Bahia (CEDEBA) que presta atendimento aos pacientes com obesidade do Estado da Bahia. A cirurgia também é oferecida no Hospital Municipal para os pacientes do Município. Este tipo de procedimento é indicado para quem possui índice de massa corporal (IMC) acima de 40, ou para pacientes com IMC superior a 35 kg/m² com diagnóstico de doenças associadas e que não obtiveram resposta a tratamentos menos invasivos por um período de dois anos.
Cinthya Brandão


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