Histórias de Nestor Gálvez e Johniery Almeida destacam o papel dos educadores na formação profissional, na pesquisa científica e na busca por soluções para problemas reais da população.
O trabalho de um professor vai muito além de transmitir conteúdos em sala de aula. Ensinar também significa despertar a curiosidade, incentivar a autonomia, compartilhar experiências e ajudar estudantes a compreender como o conhecimento pode transformar a própria vida e a sociedade. Na Bahia, as trajetórias de dois educadores mostram diferentes formas de exercer essa missão: uma ligada à pesquisa científica e à inovação energética; outra voltada à arquitetura, ao direito à moradia e à responsabilidade social.
As histórias de Nestor Gálvez Ronceros, engenheiro mecânico peruano, e Johniery Almeida, professor de Arquitetura e Urbanismo, ambos docentes da Universidade Salvador (UNIFACS), em Feira de Santana, ganham destaque em referência ao Dia do Professor, celebrado em 15 de outubro. Embora tenham seguido caminhos diferentes, os dois mostram como a docência pode contribuir para a formação profissional, o desenvolvimento científico e a transformação social.
Da experiência de imigrante à formação de novos profissionais
Em 2006, Nestor Gálvez Ronceros deixou o Peru em busca de oportunidades para continuar os estudos. Recém-formado em Engenharia Mecânica, chegou ao Brasil com aproximadamente 140 dólares, quantia que precisou administrar por cerca de dois meses, até a liberação de uma bolsa de pesquisa. Durante esse período, também contou com a ajuda de colegas que conheceu pelo caminho.
A mudança para outro país trouxe incertezas, mas também abriu possibilidades para sua carreira acadêmica e científica.
“Quando olho para trás, percebo que aqueles 140 dólares representavam muito mais do que dinheiro. Representavam coragem, incerteza e, principalmente, a decisão de acreditar que era possível construir uma nova etapa da minha vida por meio da educação e da pesquisa”, relembra.
No Rio de Janeiro, Nestor encontrou laboratórios e orientadores para desenvolver seus estudos de mestrado. A pesquisa na área de liquefação do gás natural ampliou seus conhecimentos em criogenia, termodinâmica e eficiência energética, áreas que posteriormente contribuíram para sua aproximação com o hidrogênio verde.
Anos depois, escolheu a Bahia para dar continuidade à carreira. Desde 2018, leciona em Feira de Santana, onde encontrou na sala de aula uma maneira de aproximar a experiência científica da formação de novos engenheiros.
Sua atuação envolve estudos sobre a produção, o armazenamento, a liquefação, o transporte e a utilização do hidrogênio verde, além dos desafios relacionados à eficiência energética e à viabilidade econômica dessa tecnologia.
O tema também abre espaço para discutir as possibilidades de desenvolvimento do Nordeste, região que dispõe de recursos naturais favoráveis à geração de energia solar e eólica, mas que ainda enfrenta desafios relacionados à infraestrutura, aos investimentos, à inovação e à qualificação profissional.
Para Nestor, o ensino ganha força quando os estudantes deixam de apenas acompanhar explicações teóricas e passam a experimentar, investigar e construir soluções. Em atividades práticas, os alunos tiveram a oportunidade de desenvolver e testar sistemas relacionados ao hidrogênio.
“Mais do que ensinar o funcionamento de uma célula de hidrogênio, o objetivo era mostrar aos estudantes que eles são capazes de construir algo, investigar um problema e transformar conhecimento teórico em uma experiência concreta”, explica.
A proposta evidencia uma das dimensões fundamentais da docência: estimular o pensamento crítico e criar condições para que os estudantes desenvolvam a capacidade de enfrentar desafios que vão além do ambiente acadêmico.
Ao olhar para a própria trajetória, o professor também reconhece na educação uma ferramenta de transformação pessoal. Pai de dois filhos, Andrea e Nestor, ele procura transmitir à família os valores que o acompanharam desde a chegada ao Brasil: conhecimento, persistência e trabalho.
“Talvez essa seja a principal contribuição que procuro deixar como professor e pesquisador: preparar pessoas para aquilo que ainda está sendo construído. Se conseguirmos despertar nos estudantes a capacidade de pesquisar, experimentar, questionar e propor soluções, estaremos formando não apenas engenheiros para o mercado de trabalho, mas profissionais capazes de participar da construção dos próximos sistemas energéticos”, afirma.
Arquitetura, ensino e compromisso com o direito à moradia
A trajetória de Johniery Almeida também começou com a curiosidade e o interesse pelo conhecimento. Ainda na infância, ele gostava de desenhar casas e edifícios e observar os espaços ao seu redor. Durante o ensino médio, as aulas de Geometria, ministradas por um professor com formação em Engenharia, ajudaram a fortalecer seu interesse pela área.
Ao ingressar no curso de Arquitetura e Urbanismo, encontrou novas possibilidades para unir criatividade, conhecimento técnico e compromisso com as pessoas. O contato com professores que admirava, além de experiências em monitoria e iniciação científica, contribuiu para despertar o desejo de seguir a carreira acadêmica.
Hoje, além de lecionar na UNIFACS, em Feira de Santana, Johniery atua há cinco anos à frente do Escritório Público de Arquitetura e Engenharia (EPAE), iniciativa que aproxima o conhecimento técnico das necessidades de famílias que precisam de assistência especializada.
Em parceria com a Defensoria Pública do Estado da Bahia, o projeto desenvolve atividades relacionadas à Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (ATHIS), incluindo demandas de regularização fundiária.
O trabalho mostra como conhecimentos de Arquitetura e Engenharia podem ter consequências diretas na vida da população. Em situações que envolvem a segurança da moradia e a regularização de imóveis, a orientação técnica pode contribuir para o acesso a direitos e para a redução de dificuldades enfrentadas pelas famílias.
Para Johniery, essa atuação também amplia a formação dos estudantes. Ao acompanhar situações reais, eles têm a oportunidade de compreender que a profissão escolhida envolve responsabilidades que ultrapassam os limites de um projeto ou de uma atividade acadêmica.
“Quando um estudante percebe que o conhecimento que adquiriu em sala de aula pode ajudar uma família a ter mais segurança em sua própria casa, contribuir para que alguém tenha acesso a um direito ou simplesmente encontrar uma solução para um problema que parecia difícil, ele começa a compreender o verdadeiro sentido da profissão que escolheu. E é muito bonito acompanhar esse processo, porque nós também nos transformamos enquanto ensinamos”, afirma.
A experiência reforça a importância de uma formação que associe teoria e prática, preparando profissionais capazes de reconhecer as necessidades da sociedade e utilizar seus conhecimentos para enfrentá-las.
Na avaliação do professor, educar também significa contribuir para a formação humana, estimulando a consciência sobre as consequências das decisões profissionais e a responsabilidade de cada pessoa diante da comunidade em que vive.
“Formar profissionais, sim, mas formar pessoas conscientes do lugar que ocupam no mundo e da responsabilidade que têm com as vidas que podem tocar. Se conseguirmos fazer com que nossos estudantes saiam daqui entendendo que o conhecimento só ganha todo o seu valor quando é colocado a serviço das pessoas, então teremos cumprido uma parte muito importante da nossa missão”, destaca.
O valor de ensinar vai além da sala de aula
As experiências de Nestor Gálvez e Johniery Almeida revelam diferentes possibilidades de atuação na docência. Enquanto um aproxima os estudantes da pesquisa científica e dos desafios da transição energética, o outro demonstra como a Arquitetura e a Engenharia podem contribuir para o acesso a direitos e para a melhoria das condições de moradia.
Em comum, os dois educadores defendem uma formação que estimule a autonomia, a capacidade de questionar e a aplicação prática do conhecimento.
A valorização dos professores passa pelo reconhecimento desse trabalho cotidiano, que exige atualização constante, dedicação e responsabilidade na formação das novas gerações. É na relação entre educadores e estudantes que o conhecimento ganha sentido, abre perspectivas profissionais e pode se converter em soluções para desafios coletivos.
Mais do que ensinar uma disciplina, o professor participa da construção de caminhos. Seu trabalho ajuda a preparar pessoas para o futuro, incentiva novas descobertas e demonstra que a educação não se limita à transmissão de conteúdos: ela também pode ampliar oportunidades, fortalecer a cidadania e transformar realidades.
Informações: Andréa Carvalho – Ideia
Redação: Hélio Alves / Tribuna do Recôncavo



















































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Foto: Hélio Alves/ Tribuna do Recôncavo
















































