O  Recôncavo, Procissão

 

A imagem vai seguindo

Entre casarões dourado-desbotados

E os milagres

(Pecados?)

Vão ficando no caminho

Como num quadro de Rony Bonn

Carine Araújo

 

A paisagem, tal qual filme do oeste americano surge como ‘um presente’. As favelas da zona metropolitana de Salvador desaparecem e surgem colinas, plantações de bambu, palmeiras e eucaliptos, abençoados por nuvens brancas no céu azul de brigadeiro.

Ao redor das colinas, estrada com ambulantes e suas bananas e doces típicos; deliciosas tavernas quase primitivas e velhas roças ao fundo.

E… não mais que de repente, surge um arco contra o céu, anunciando “Cachoeira Heroica e Monumento Nacional”,  tão bela que foi proclamada Patrimônio Imaterial desde 2010.

Imponente e bucólica Cachoeira (1)…heroica pela participação nas lutas da independência, histórica pelo patrimônio, praças, igrejas, casario barroco, fachadas coloridas desembocando no mágico Rio Paraguaçu.

Um de seus encantos é a mágica e majestosa Ponte D. Pedro II, ponto de união com a vizinha São Felix. Corta o Rio Paraguaçu, com suas colunas de ferro vazadas e dispostas em X; dormentes soltos onde repousam os trilhos, que  impacientes vibram ao menor sinal de veículo, tremendo e emitindo sons com a passagem imponente dos trens…talvez para assombrar forasteiros desprevenidos, quem o sabe?

E como renda fina estirada sobre o Paraguaçu, parece abrigar o sobrenatural, inspira o amor.

No entardecer dourado, o caudaloso e largo Rio, nos encanta enchendo olhos, corações, aquietando a alma.

Casas encravadas com luzes coloridas e reluzentes aos pés do imponente Mirante, imagens surgem no seu leito  espelho d’água. Torres de igreja e casas à margem lembram cenário de postal, onde a vida passa devagar, tão malemolente quanto o sotaque baiano.

E em todo agosto, Cachoeira floresce para celebrar a Festa de Nossa Senhora da Boa Morte, manifestação que representa a ancestralidade dos povos africanos e libertos do Recôncavo.

Foto: Krika Mattos

Em rituais ancestrais, surge a Irmandade da Boa Morte, ‘primeira organização feminista negra’, que em diálogo multi religioso, organização, luta e resistência, preserva os valores e tradições africanas.

Outrora, o movimento surgiu das mobilizações das Guerreiras Irmãs, que se aproximaram da Igreja, construindo uma identidade afro católica e fundando uma Irmandade com o empenho de alforriar negros escravizados e fugidios.

Para preservar sua identidade e fugir de árduos castigos e punições impostos pela Igreja; irmãs, mães e esposas dos escravos fugidos, rogavam a intercessão de Nossa Senhora da Boa Morte, pelo fim da escravidão e sofrimentos.

Espírito de luta também exercido por Maria Quitéria, brava Guerreira, que como ‘soldado’ Medeiros’ envergando vestes masculinas, lutou bravamente junto com os voluntários do príncipe Dom Pedro, ganhando a insígnia de Cavaleiro Imperial da Ordem do Cruzeiro.

Permeadas de fé e celebrando a ‘boa vida, as celebrações litúrgicas e sincréticas da Festa de Nossa Senhora da Boa Morte duram três dias em datas móveis.

Nesse ano, no primeiro dia, após a procissão levando o corpo de N. Sra. da Boa Morte pelas ruas da cidade, a liturgia na Capela citou a luta e resistência da mulher enaltecendo a busca da força interior e fé, para uma ‘boa vida’ e ‘boa morte. Na missa pelas irmãs falecidas entre cantos e orações, (…’nos céus com a minha mãe estarei…”) foi salientado que devemos dar ‘boa morte’ também, ao que não mais nos pertence e ao que nos oprime.

No segundo dia, “dormição” de Nossa Senhora na missa de corpo presente, a prece ecoa na alma…. ‘É teu também nosso coração. Aceita, Senhor a nossa oferta, que será depois, na certa, o teu próprio ser’. Ao final do mantra sagrado, em passos silenciosos como prece, a multidão percorreu ruas da cidade guiadas a luz das velas carregadas pelo séquito da Irmandade.

Encerrando as celebrações sagradas, no terceiro dia, dedicado à Assunção de Nossa Senhora de Glória, após a alvorada, a igreja Matriz ficou em festa.

Inundada pela egrégora de luz, esperança e gratidão, e na ‘fé no que virá’ a multidão após a missa, percorreu as ruas da cidade louvando Nossa Senhora, sob o rufar da centenária e garbosa Filarmônica Minervina Cachoeirana.

Quiçá na passagem, o mimo de um leve toque no andor da Santa, captando com a fé e mãos bênçãos para o porvir…

A frente seguem as Irmãs Guardiãs do caminhar (2)’ onde cada esquina recorda e abriga silenciosa, lutas, memórias embaladas pelo vento, em cantos torsos de oitizeiros do Faquir.’

E ao final do dia, a Irmandade vestida de ‘roupa de baiana” (3) celebrando triunfantes, abrem o samba de roda no alto da Capela da Ajuda e tal qual como nos versos da poetisa santamarense Mabel Veloso…(4) “dançando e cantando como aos vinte anos e….não nos deixando lembrar que fizeram oitenta”.

São pueris os Sagrados encantos de Cachoeira… nos deixam em perene Estado de Graça.

E entre tantos outros encantos…ouso ‘dicar’: que contemplar o Mestre Rio Paraguaçu ao som do silêncio interno, abstraindo no sábio vai e vem das águas nos aproxima da humildade pura e simplesmente…e nos faz refletir sobre a fé.

Foto: Lenny Blue

Peregrinar sutilmente com passos leves como prece, que se tornam humildes em árduas ladeiras e caminhos quase sempre tortuosos – nos preenche com a concretude do pertencimento.

E, ao entoar coletivamente os cânticos – linguagem de fé e esperança; lá vai o espírito aos céus, intensidade da gratidão pela  Encantada Egrégora – eis os Sagrados Encantos de Cachoeira!                                                                                                                                                                               Voltarei, na fé!

 

 

LENNY BLUE DE OLIVEIRA

Ativista ‘Jurássika” Negra, uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado, Advogada, Colunista Mensal do “Jornal Centro Em Foco e facilitadora de Tai Chi Pai Lin – UBS – República.

 

 

1 – Cachoeira proclamou D. Pedro como regente do Brasil, um marco na libertação do jugo português. O povo combatente e negro de Cachoeira rechaçou às pretensões portuguesas em submeter o povo baiano, e impôs derrota   à barca lusitana, proclamando D. Pedro como Príncipe Regente, dois meses antes do grito de Ipiranga, momento embrião na  libertação do jugo português.

2 -Oitizeiros do Faquir. Menção as lendárias arvores da Praça do Faquir, próxima à orla de Cachoeira. Edmar Ferreira, Poeta e escritor o poema Segredos de Agosto (para a Irmandade)

3 –  (bata branca, saia colorida,  turbante e pano da costa)

4 – Veloso, Mabel – Pedras de Seixo, 1980, p.136.

 

Texto e fotos enviados ao Tribuna do Recôncavo pelos autores.