Há 80 anos, em 15 de outubro de 1940, o filme “O Grande Ditador”, de Charlie Chaplin, estreava em Nova York. Quando foi exibida em Londres, dois meses depois, a sátira sobre Adolf Hitler já vinha precedida pelas reações do outro lado do Atlântico.  “Uma obra verdadeiramente extraordinária de um artista verdadeiramente grande. E, de um certo ponto de vista, talvez o filme mais significativo que já foi produzido”, resenhou na época o jornal The New York Times.

Com exceção de “Tempos Modernos”, lançado em 1936, nenhum dos filmes de Chaplin é tão preocupado com o estado contemporâneo do mundo. “O Grande Ditador” foi lançado treze meses após Hitler invadir a Polônia, e quatro após a queda da França. A Segunda Guerra Mundial se propagava, na Europa, e ninguém sabia como as tropas alemãs seriam detidas.

Mas Chaplin lançou o alerta, ao descobrir a possibilidade de criar um sósia perfeito de Adolf Hitler na personagem de Adenoid Hynkel. Conta-se que o ditador, ao se deparar com o bigode, a gestualidade e o tom de voz que o caracterizavam, chiou. E deve ter espumado ao ver que Chaplin fazia outro papel, no filme: um barbeiro judeu, sósia de Hynkel. Aproximar Hitler de um judeu simples, simpático e desmemoriado, pode ter sido uma das piores ofensas que o genocida recebeu. O cinema, uma das principais ferramentas da máquina de propaganda nazista, apresentava um manifesto tragicômico, que esvaziava a retórica e a pompa hitleristas.

À época, muitos se surpreenderam com a escolha de Chaplin por um tema tão delicado para realizar seu primeiro filme inteiramente sonorizado. O próprio cineasta revelaria mais tarde que não teria como encenar sua obra se, na época, toda a extensão do terror nazista já tivesse vindo à tona. “Se soubesse do horror dos campos de concentração alemães, eu não teria podido fazer ‘O Grande Ditador'”, admitiu.

Mas, ao realizar a obra, o cineasta entregou um dos momentos icônicos do cinema; quando a dissimulação de Hynkel cai por terra, ele se transforma e faz um discurso -como Chaplin: “Pensamos demais e sentimos muito pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de gentileza e bondade. Sem essas virtudes, a vida será violenta e tudo será perdido.”

Metro1