O que significa o protesto desse dia 12 de abril?

A resposta vai cair fundo ao PT: não significa uma efervescência das “zelites”. Leia Mais

É um movimento típico da classe média antiga, a classe média perigosa e nessa condição há muito tempo. Se eu fosse petista, teria medo da classe média antiga, que vai lotar as ruas nesse domingão. E não só isso: esse velha classe média agora deu as mãos à nova classe média, inconformada que esta com as roubalheiras do PeTrolão e carestia impagável, nos dois sentidos do termo.

Precisamos diferenciar as coisas. O sucesso do PT se deveu à distribuição de renda (possível só porque FHC arrumou a economia). Tal atitude do PT foi bem vinda, é óbvio, porque regulou o surgimento da nova classe média brasileira com o mesmo fenômeno no mundo.

Vejamos: a nova classe média é responsável por mais de um terço de toda a população da África, de três quartos da população da América Latina e de quase 90% da população da China. É a classe que segundo o Banco Mundial tem faturado de 2 a 13 dólares por dia, e que subiu de 277 milhões de representantes da América Latina para 362 milhões entre 1990 e 2005.

 

A nova classe média sempre votou PT porque atribui a Lula a sua gênese,  a sua vinda ao mundo do consumo.

O nova classe média está, contudo, movimentando-se rumo aos valores da antiga classe média – que nunca teve ideologia, aliás. Sua ideologia era a estabilidade. Finda e estabilidade, ninguém pensa mais em partido político: passa a pensar apenas em fechar as contas no fim do mês.

Quem vai para as ruas neste domingo não tem ideologia nenhuma: só não quer mais ser roubado, tungado, ou ver conta de luz ter aumentado 120% em um ano, como é o meu caso, por exemplo.

 

Vejam: esse lance de fim de ideologia não é novidade. O termo, originalmente, foi criado por Albert Camus. Gerou “n” obras, dos anos 1950 para cá: “O Deus que Falhou”, de R. H. Crossman (com textos de Koestler, Silone, Gide, entre outros); um punhado de ensaios de Arthur Koestler e Ignazio Silone, o famoso “ O Ópio dos Intelectuais” , de Raymond Aaron e, last but not least, “The End of Ideology on the exhaustion of Political Ideas in the Fifties” , de Daniel Bell, lançado em 1960 em primeira edição e agora relançado pela Harvard University Press.

Gente que não tem ideologia é perigosa aos governos porque vai acabar seguindo qualquer patife que prometa tempos melhores. Collor só foi eleito por causa desse estado de espírito: aliás, o mesmo que elegeu Hitler (em 13 de março de 1932 Hitler 11,4 milhões de votos…)

 

A classe média que vai às ruas nesse domingo (seja a velha ou a nova, ora decepcionada com seu pai espiritual, Lula) é perigosa.

Dois gênios teorizaram sobre as classes médias: Marx e Golbery do Couto e Silva

A nova classe média

Sobre a nova classe média brasileira, ex-aliada ao PT (antes de a conta de luz subir) Karl Marx teria muito a falar.

O retrato fiel da nova classe média brasileira sempre foi definido como bonapartismo.

O termo “bonapartismo” é classicamente empregado na obra O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, escrito entre dezembro de 1851 e março de 1852 , e publicado originalmente por Karl Marx na revista  Die Revolution.

Marx, chamado derrisoriamente pela sua mulher, Jenny, de The Old Nick ( o velho satanás) escreveu:

“A tradição de todas as gerações mortas pesa sobre o cérebro dos vivos como um pesadelo. E mesmo quando estes parecem ocupados a revolucionar-se, a si e às coisas, mesmo a criar algo de ainda não existente, é precisamente nestas épocas de crise revolucionária que esconjuram temerosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomam emprestados os seus nomes, as suas palavras de ordem de combate, a sua roupagem, para, com este disfarce de velhice venerável e esta linguagem emprestada, representar a nova cena da história universal”

Nosso espírito do passado é o bonapartismo brazuca.

Usado por FHC e Maria Victoria Benevides para definir Jânio Quadros, o termo “bonapartista” é uma referência a dois golpes de Estado: o de Napoleão Bonaparte em 1799, que descartou as conquistas republicanas da Revolução Francesa e instaurou um governo ditatorial, e o de seu sobrinho Luís Napoleão em 1851, quando era presidente da República proclamada em 1848.

O bonapartismo ocorre quando a autoridade do líder se articula a um partido de massas que intervém em todas as esferas da sociedade civil: sindicatos, associações patronais, grupos de jovens e de mulheres.

É o mundo sobre o qual o PT entesourou apoio.

 

A velha classe média

Vejamos Golbery do Couto e Silva, o bruxo da abertura política, com o seu “paper” intitulado “Sístoles e Diástoles da Política Brasileira”. Ele ressalta o papel da classe média brazuca como chave das mudanças políticas.

Para Golbery, o Brasil tem um condão único: quando o poder fica mais conservador que o povo, este opta por aberturas. Quando o  poder abre demais à esquerda, é fechado por golpes paterocinados pela sociedade civil mas não tão civilizada:  o tenentismo de Vargas era uma abertura face à política consaervadora do café com leite, retirada à forceps; Getúlio, por sua vez,  encastelou demais e teve de meter um balaço;  Jango abriu demais, foi fechado pelo Movimento de 1964; e este, por sua vez, fechou demais e teve de instalar a abertura lenta e gradual. Derrubaram Collor.

É essa velha classe média que vai comandar o dia 12 de abril. É famosa, como se viu, por abrir o poder mais à esquerda, ou fechá-lo mais à direita.

E neste 12 de abril, essa velha classe média vai dar as mãos à nova classe média, hoje ex-petista.

Juntas, tunadas, com altas octanagens de inconformismo, podem decretar um novo estado de coisas: como nunca antes na história deste país…Depois de 12 de abril o futuro de muita gente pode ficar mais escuro que asa de graúna.

 

 

Neste domingo, dia 12, duas classes vão as ruas. Reflita conosco! - noticias

 

Clauio Julio Tognolli é jornalista há 35 anos e já passou por “Veja”, “Jornal da Tarde”, “Caros Amigos”, “Joyce Pascowitch”, “Rolling Stone”, “Galileu”, “Consultor Jurídico”, rádios CBN, Eldorado e Jovem Pan e “Folha de S. Paulo”. Ganhou prêmios de jornalismo e literatura como Esso e Jabuti. É diretor-fundador da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e membro do ICIJ (International Consortium of Investigative Journalism). Professor da ECA-USP, escreveu 12 livros.   (yahoo)