Eu sou ateu e quebro agora o protocolo de dois modos: um, por fazer deste texto um objeto pessoal e começa-lo utilizando o pronome pessoal “eu”, quando tudo que se busca é uma narrativa imparcial, tal como as redações do ENEM exigiam serem escritas; dois, por declara-me ateu em uma sociedade fortemente religiosa, coisa impensável em momentos anteriores ou em contextos particulares, como a família católica. A combinação destes elementos, por sua vez, reflete a temática do exame nacional do ensino médio deste ano: a tolerância religiosa e os caminhos para se combater a intolerância no Brasil.

O título do texto utiliza a palavra “provocar” por exigir daquele que lê outras possibilidades de olhares, mais aprofundados do que a superficialidade apresentada. Somente pelo título não se é capaz de assegurar se a provocação é positiva ou negativa, uma vez que a provocação atrela-se a ideia de ser mobilizado para algo. A provocação é de fato um desafio, que neste caso segue para, tal como o ENEM, assegurar o desconforto do candidato em pensar um tema que está ancorado no cotidiano. Não se trata de colocar-se como eixo central do problema, tal como o fiz no começo do texto, e defender uma posição religiosa, mas encontrar o ponto em que as diferenças se constroem, sendo aceitas, e reconhecer quando os limites atingidos se convertem em violência, resultando em diferentes casos de desrespeito e agressão, noticiadas com frequência pelas mídias.

Na realidade brasileira, a composição do mapa religioso é vasto, completamente justificável pela história do país, fundada por diversos povos e raças, que traziam a sua própria forma de viver ou não a religião. Neste sentido, a provocação, mais uma vez, exige que o candidato saia do conforto social em que talvez se encontre, para pensar como os fenômenos religiosos podem ou não serem aceitos pelo outro, quais as consequências destas práticas de aceitação ou negação, bem como, pensar de que modo os sujeitos podem declarar-se a partir de sua posição religiosa sem sofrer violências por suas escolhas. Ser tolerante é, neste sentido, respeitar as diferenças individuais dentro de um coletivo que lhe é mais forte. Crer ou não crer, bem como a manifestação da crença religiosa passa para um segundo plano, sendo necessário respeitar as manifestações e pensar de que forma pode-se construir estes caminhos.

Em última instância, é isto que provoca a temática do ENEM: nos colocarmos no lugar do outro, possibilitando a reflexão das diferenças e provocando nos sujeitos uma elaboração de pensamento sobre uma temática de extrema importância para a nossa sociedade: o exercício religioso e o respeito pelo outro. (Rafhael Peixoto é universitário e reside em Santo Antônio de Jesus | Postado Originalmente pelo Tribuna do Recôncavo)