Por Waldir Santos

Fala-se muito sobre o hábito, hoje frequente em virtude das facilidades da comunicação, de disseminar notícias falsas na internet. Normalmente a preocupação se limita às suas consequências nas campanhas eleitorais. Para o Ministro Fux e a Ministra Rosa Weber, presidentes do Tribunal Superior Eleitoral, parece que isso se tornou quase pauta única.

O grande mal causado por essa atitude, na maioria das vezes inocente em sua continuidade, mas criminosa em sua origem, não está somente nesse campo. Todos os dias pessoas são vítimas de notícias falsas, que são propagadas com facilidade em função da inexperiência dos usuários da rede. Um exemplo simples: ao encaminhar um áudio verdadeiro, que falava de um suspeito de espetar pessoas no centro de Salvador com uma seringa contendo sangue, alguém substituiu a foto que acompanhava a mensagem e colocou no lugar a foto de um cidadão de bem, que na hora dos fatos estava dirigindo um ônibus coletivo em seu trabalho diário. Ele precisou ir à delegacia para não ser surpreendido com uma prisão, e, se isso não tivesse virado notícia de jornal, ele poderia ser linchado na rua, como aconteceu em situações semelhantes no Rio de Janeiro e em São Paulo.

A mais recente notícia falsa que ganhou repercussão na Bahia dizia que a ponte da BR 101, entre Cachoeira e São Félix, estava rachada e com risco de desabamento. Junto com ela vinha uma foto da ponte sobre o Rio Tocantins, em Porto Nacional (TO), totalmente diferente e sem a conhecida mureta da ponte do Recôncavo. Milhares de pessoas encaminharam a mensagem em seus grupos, e já tinha gente cancelando sua viagem para as festas juninas.

O malfeitor aproveitou uma informação verdadeira, como sempre ocorre nas fakenews, e a distorceu. De fato, há um espaço entre as lajes de concreto, como ocorre em toda ponte grande, e a rachadura se situa no asfalto que as recobre, sem qualquer risco de acidente. A foto anexada à maioria das mensagens trazia uma fissura anormal, na lateral de uma das lajes de outra ponte. A imprensa entrou em campo e desfez o equívoco.

A conduta de quem pela primeira vez anexou à “informação” uma foto capaz de causar pânico nas pessoas ou sérios prejuízos aos comerciantes de cidades como Cruz das Almas, Santo Antonio de Jesus e Amargosa, ou, ainda, gerar movimento anormal, com filas enormes, no ferry-boat, não deveria ficar impune. E é muito fácil identificá-la. Basta que as pessoas que receberam a “informação” perguntem, a quem lhe enviou, de onde veio, e assim se chega à origem.

Infelizmente o brasileiro não mostra interesse pela identificação de pessoas que, protegidas pelo anonimato, adotam comportamento nocivo à sociedade. Quem se dá ao trabalho de produzir fakenews precisa ser responsabilizado, mas a maioria das vítimas em potencial não nota a gravidade disso. Acha que dizer quem lhe encaminhou (mesmo sabendo ser outra pessoa inocente, e que não sofrerá nenhuma consequência) é algo reprovável. Para melhor compreensão, exemplifico: imaginemos que uma ponte seja danificada por uma chuva forte ou por um veículo acidentado. É claro que as primeiras informações vão chegar pelo whatsapp, mas a existência de fakenews como algo tolerado pela sociedade levará muita gente a pensar que se trata de mais uma, e podem se expor, assim como a sua família, a um risco evitável.

A reação mais comum agora é dizer: ‘tudo esclarecido, tudo resolvido”. Não. Isso só estará resolvido quando pessoas com esse comportamento forem punidas, para que outras não façam o mesmo. Condutas semelhantes já causaram muitos prejuízos, e até causaram a morte de pessoas.

* Waldir Santos é Advogado da Uniao