O que me falta pra ser dizimista?

Sou católico, vou à missa aos domingos, confesso, comungo. Até participo das atividades da Igreja, colaboro com as campanhas, leilões, construções e reformas de templos, mas ainda não sou dizimista. O que está me faltando?

Está me faltando compreender o dizimo em sua essência. Conhecer sua proposta e acolhê-la. A oferta eu dou quando quero; o dízimo eu tenho a responsabilidade de devolvê-lo. A comunidade conta com minha oferta, mas confia no meu dízimo; com a oferta eu ajudo a construir um templo ou realizar uma atividade convencional; com o meu dízimo eu participo da sobrevivência cotidiana da minha paróquia.  É preciso entender que dinheiro não cai do céu e que sem ele nada funciona. Da mesma forma que precisamos de dinheiro para a nossa sobrevivência a igreja – instituição – também precisa para se manter. Contudo, não vamos confundir dízimo com taxa de manutenção, contribuição de melhoria ou imposto obrigatório.

As organizações não governamentais necessitam de recursos para a sua existência. Ao participar, o primeiro compromisso do associado é contribuir com a taxa de manutenção, nos casos específicos de sindicatos de categoria, a taxa de manutenção já é fixada e definida em lei ou acordo coletivo, e descontada na própria folha de pagamento do trabalhador. Aqui o dinheiro é um meio, ou seja, o cidadão paga para ter, e o associado paga para sê-lo. Já com o dízimo acontece o contrário. Ele é um meio de devolução. Primeiro eu tenho para depois eu dispor. O dízimo não tem objetivo, ele é o objetivo.

Pensar o dízimo como uma forma de pagamento à igreja ou a garantia de alguns direitos, digamos, sobre aquilo que a igreja tem para oferecer, é completamente errado. O dízimo é a minha participação. Dou aquilo que posso sem nada em troca esperar. Embora signifique dez por cento, ou a décima parte, não é preciso fazer conta. Deus, certamente, não vai fazer contas do salário ou da renda de ninguém. Porém, se posso dar dez, por que vou dar cinco? Se eu posso dar cinco por que vou dar dois ou apenas um?  O ato de devolver o dízimo deve ser feito de modo a agradar o coração de Deus e ao meu coração também. E nunca o contrário. Segundo as palavras sábias de São Paulo, Deus ama a quem dá com alegria! (2cor. 9-7). Se eu posso dar mais, significa que estou ganhando mais. E ganhar mais é o objetivo de todos nós trabalhadores. Vivemos infelizmente um mundo capitalista. Ganhar mais, desde que seja de maneira honesta e com o suor de nossos rostos, não é nenhum pecado! Deus deixou o homem para bem viver. Deus não quer ver a nenhum dos seus filhos passando fome. E quando isto acontece, a responsabilidade em alimentá-lo, não é de Deus, é nossa! Tudo que fizestes a um dos meus irmãos pequenos é a mim que o fazes.

É muito triste nos depararmos com cristãos, líderes religiosos pregando um verdadeiro comércio do toma lá da cá com Deus. Ao instituir o dízimo Deus colocou para o ser humano a possibilidade de partilhar aquilo que o próprio Deus lhe dá. E nada exigiu do homem, pelo contrário, Ele propôs e ofereceu recompensa a quem o fizer: trazei o dízimo integral para o templo e vereis se não vos abrirei as portas do céu e derramarei as minhas bênçãos, muito além do necessário. (Ml, 3-10). Será que esta promessa de Deus me diz algo? Pois bem! É bom nos lembrarmos de que Deus não nos obriga a fazer nada. Somos filhos eleitos e livres para decidir o que queremos. O próprio Deus nos deixa dois caminhos: a vida e a morte, e Ele mesmo indica o caminho melhor – ESCOLHE, POIS, A VIDA.

O que me falta pra ser dizimista? Falta o desprendimento do que é material; lembrar-me de que não adianta juntar tesouros aqui na terra; entender que as mãos mais pobres são as que mais se abrem para dar e que a oferta da pobre viúva valeu para Deus, muito mais que outras, às vezes dada apenas porque sobra, pois sua oferta consistia em tudo o que tinha.

Gilbenicio[1] (1)Gilbenicio de Souza Brandão

Paróquia São Benedito-SAJ

Diocese de Amargosa-Ba

(Colunista do Tribuna do Recôncavo).

COMENTÁRIOS:

Zelenildes Santos Ferreira: Que bom! Belo texto, espero que algumas pessoas tenham tido a oportunidade de ler essa mensagem, porque dízimo é uma questão de fé, e compromisso com a igreja cristã . Um abraço amigo! (zelenildes@hotmail.com).

Orlando Arêdes Louzada: Ao falar sobre Dízimo, temos que fazê-lo com responsabilidade e convicção. Quando rezamos  “Cremos na Igreja Católica”  na oração do Creio, estamos assumindo também levar Cristo a todos os irmãos e sustentar nossa Igreja na forma da partilha. Parabéns Gil, são iniciativas como essa que nos faz continuar a caminhada, e nos ensina a divulgar nosso Dízimo de forma fácil de ser compreendido. Um abraço.

Antonia Maria Ferreira de Oliveira: Parabéns amigo Gil, muito interessante e importante seu artigo para a conscientização de nossos irmãos que ainda não entendem o que é ser um dizimista. abraços!

Sem sermos felizes naquilo que fazemos, dificilmente faremos algo de bom para outras pessoas

Uma mulher me respondeu com um sorriso contagiante quando eu lhe dei um simples “tudo bem?”. A resposta foi intensa: “Graças a Deus! Sou muito feliz por trabalhar nesta escola”. Ela trabalha na limpeza da escola. Não mora tão perto. Acorda bem cedo. Pega mais de uma condução. Quando chega em casa, tem outra jornada com o marido e os filhos. E é feliz.

Tenho muito respeito pelos funcionários das escolas. Os que limpam os espaços em que educamos, os que preparam o alimento das crianças, os que cuidam para que tudo esteja em ordem para nós, professores, realizarmos nosso ofício. Sou muito feliz por ser professor. E escritor. E sempre que converso com jovens sobre profissões, tento ajudá-los a perceber que a melhor escolha é fazer aquilo que nos realize, que nos faça perceber que podemos ser úteis à sociedade. Não há profissões superiores ou inferiores. Todo trabalho é digno, quando feito honestamente. Mas é preciso ir além. É preciso ter o entusiasmo daquela mulher que encontrou naquela escola o seu canto de realização. Podemos lutar por nossos direitos, buscar melhores condições de trabalho. O papa Francisco disse, nesta semana, que é escandaloso mulheres ganharem menos que homens para exercer a mesma função.

Há ainda um longo caminho para valorizar as pessoas e as profissões, para dar dignidade a todos e acabar com preconceitos. Mas há um outro fator, de extrema importância, também, que é o encontro com nossa própria vocação, com o que, de fato, nos diga se estamos ou não no lugar certo. Como é ruim encontrar pessoas que detestam o próprio trabalho, que detestam o que fazem e que não encontram disposição para buscar novos caminhos. Vidas desperdiçadas. Sem sermos felizes naquilo que fazemos, dificilmente faremos algo de bom para outras pessoas. Com gestos amargurados, contaminamos o ambiente e a nós mesmos. Sempre é tempo de ressignificar nosso trabalho, de redescobrir a chama que nos faz iluminar pessoas com simples respostas como esta: “Graças a Deus! Sou muito feliz por trabalhar nesta escola”. Feliz dia do trabalho.

BIOGRAFIA:

Atualmente Chalita é professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor do Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas – FMU e Membro de Conselho Editorial da Revista Profissão Mestre. É membro da União Brasileira de Escritores, da Academia Paulista de Letras e recentemente foi eleito por unanimidade na Academia Brasileira de Educação.

Apresentou, através do Sistema Canção Nova de Comunicação, o programa Papo Aberto, pelo rádio e pela televisão. Atualmente, apresenta o programa Mundo Melhor, na Rede Vida de Televisão, emissora de orientação católica.

Na politica foi deputado federal até 2014, porém decidiu não concorrer a um novo mandato. Em 13 de janeiro de 2015, foi nomeado pelo prefeito Fernando Haddad ao cargo de secretário da Educação da cidade de São Paulo.

 (Tribuna do Recôncavo, com informações do Diário de São Paulo)

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