As eleições municipais de 2016 nos trazem uma constatação intrigante: a indiferença do eleitor. Em muitas cidades a soma de abstenção, votos brancos e nulos superaram a quantidade de votos do eleito, ou até o total de votos válidos. É o caso Nova Iguaçu (RJ), Ilhéus (BA), São Paulo (SP) e muitas outras.

Esta indiferença pode ser explicada pelo desgosto da população com a política, talvez pela expectativa gerada pelas promessas mirabolantes de campanha na maioria das vezes não concretizada. A população espera por um Salvador da Pátria ou por um gestor capaz de com planejamento, diálogo, transparência e competência realizar o possível com os limitados recursos disponíveis?

O momento político que vive o Brasil com as investigações contra políticos e o processo de impeachment, certamente contribuiu para a desilusão do eleitor, que passa a desacreditar de todos os políticos, já que a maioria dos partidos estão envolvidos em denúncias de corrupção.

Em Santo Antônio de Jesus, apesar dos indiferentes não ter superado o vencedor (abstenção, nulos e brancos somaram 10617 para 50570 votos validos), temos que levar em consideração que no recente recadastramento eleitoral para o uso da biometria, mais de 10000 eleitores tiveram os títulos cancelados por não terem comparecido para o recadastramento. Isto dobra o numero do que podemos considerar eleitores indiferentes. Aproximando-os ao total de votos do candidato segundo colocado no pleito eleitoral.

Qual a mensagem nos é transmitida por este grande número de eleitores indiferentes? Certamente que a politica precisa ser reformada e o politico, independente de partido político, precisa se reaproximar do eleitor.

No entanto, não podemos ignorar que o processo democrático para se concretizar exige a participação popular. O compêndio da doutrina social da Igreja nos diz em um trecho “190 ….. O governo democrático, com efeito, é definido a partir da atribuição por parte do povo de poderes e funções, que são exercitados em seu nome, por sua conta e em seu favor; é evidente, portanto, que toda democracia deve ser participativa. Isto implica que os vários sujeitos da comunidade civil, em todos os seus níveis, sejam informados, ouvidos e envolvidos no exercício das funções que ela desempenha…. Merecem uma preocupada consideração, neste sentido, todas as atitudes que levam o cidadão a formas participativas insuficientes ou incorretas e à generalizada desafeição por tudo o que concerne à esfera da vida social e política: atente-se, por exemplo, para as tentativas dos cidadãos de «negociar» com as instituições as condições mais vantajosas para si, como se estas últimas estivessem ao serviço das necessidades egoísticas, e para a praxe de limitar-se à expressão da opção eleitoral, chegando também, em muitos casos, a abster-se dela.”

Concretamente, é uma realidade que não participamos efetivamente dos diversos mecanismos que consolidam o processo democrático, como por exemplo dos  diversos conselhos de politicas públicas que exercem essa função de envolver o cidadão no processo politico durante todo o ciclo do mandato e não apenas durante o processo de renovação. Dá tristeza ver pessoas politizadas consolando candidatos que não obtiveram êxito na disputa “ daqui 4 anos estou contigo de novo”. O processo político exige continuidade e o sucesso de quem quer praticar a verdadeira política, com ampla participação da população em todo o processo, passa necessariamente por mantê-los envolvidos permanentemente.

Portanto, podemos agora tentar responder a pergunta feita no inicio do texto: majoritariamente a população busca um Salvador da Pátria que resolva todos os problemas coletivos de forma rápida e eficiente e ao não ter sucesso em sua busca, somado as inúmeras denúncias de corrupção, responde com a rejeição ao processo eleitoral, pois “não vai resolver nada” ou “são todos ladrões”.

O Papa Francisco disse sobre o envolvimento do Cristão e pessoas de boa vontade na política: “Envolver-se na política é uma obrigação para um cristão.  Os cristãos não podem fazer como Pilatos, lavar as mãos: Devemos envolvermos na política, porque a política é uma das formas mais elevadas da caridade, visto que procura o bem comum. Os leigos cristãos devem trabalhar na política. Dir-me-ão: não é fácil. Mas também não o é tornar-se padre. A política é demasiado suja, mas é suja porque os cristãos não se envolveram com o espírito evangélico. É fácil atirar culpas… mas eu, que faço? Trabalhar para o bem comum é dever de cristão”

Devemos buscar maior envolvimento na vida política de nossa cidade e compreender que ao eleger um prefeito ou vereador, não delegamos a ele total responsabilidade por solucionar os problemas da cidade. Continua sendo nossa responsabilidade, acompanhar, opinar e fiscalizar suas propostas e ações, de forma que ao se sentir fiscalizado e acompanhado, a autoridade politica desempenhe sua função com competência, honestidade e transparência. E sempre nos questionar antes de criticar: “…mas eu, o que faço?”

Por Marcos Lessa – colaborador do Tribuna do Recôncavo