Vários pensadores falam acerca da importância da afetividade na educação, sobretudo na relação aluno-professor, que inclui carinho, respeito, confiança, enfim uma relação amistosa que deve existir entre ambos.

O eterno educador Paulo Freire traz como uma das definições para educação, “É um ato de amor e de coragem”, que ele intitula de “Pedagogia da amorosidade” – amor porque a prática pedagógica sem afetividade não funciona e coragem porque as demandas da educação são cada vez maiores e se o professor não possuir essa coragem para driblar os desafios ele desiste no meio do caminho ou adoece frustrado.

Recentemente um ex aluno foi entrevistado pelo site Tribuna do Recôncavo e fez uma declaração que emocionou-me, relatando o quanto fiz a diferença como professora na sua vida, a motivação e a afetividade encontradas no ambiente escolar repercutiu na sua vida e deixou marcas positivas que o incentivou a prosseguir nos estudos. Essa é uma das melhores recompensas para o professor; é gratificante para ele saber que as sementes  deram frutos.

jocinereA frase de Paulo Freire “Educação é um ato de amor e de coragem”, descreve   muito bem o início da minha carreira. Afetividade e coragem se fizeram presentes para que eu enfrentasse os muitos desafios do caminho.

Foi constatado que na cidade na qual eu morava o índice de distorção idade/ série era altíssimo e para sanar o problema veio o chamado “projeto de aceleração” no ano de 2000, onde através de módulos específicos os alunos defasados passavam a ter aulas diferenciadas. Quem foram os professores escolhidos para mediar essas turmas? Na sua maioria aqueles que eram contratados, como eu. Um professor contratado não tem muita opção, geralmente lhe é destinado o que “sobra.”.

Foi uma tarefa árdua ser professora de uma classe com alunos de diferentes idades e séries, todos com sérias dificuldades de leitura, escrita e cálculos. O que fazer? Desistir? Ou abraçar a missão?  Tinha diante de mim alunos desmotivados, repetentes, defasados, carentes de afeto, indisciplinados na sua maioria. Mas ali havia vidas e quis fazer a diferença junto com eles.

O que fazer diante de tantos desafios? Utilizar recursos que o projeto enviou, adequá-los à realidade; utilizar metodologias variadas que pouco a pouco foram despertando a sede de aprender de cada um, ajuda mútua, todos se tornaram  parceiros, a indisciplina foi vencida e aprendizagem passou de fato a acontecer na vida desses alunos. IMG-20160803-WA0158A professora se tornou uma espécie de “professora maluquinha”, personagem do autor Ziraldo e os alunos a seguiam. Eram dramatizações, peças teatrais, jogos, músicas, etc, mas o que fazia sucesso mesmo eram os “contadores de histórias”, numa disputa sadia os alunos competiam para saber quem lia mais a cada semana e recontavam na sala para os colegas; assim era colocada uma classificação na sala semanalmente e  os primeiros colocados ganhavam algum prêmio ou medalha.

Essas vivências marcaram meu início de carreira  docente e  me deu a certeza que apesar de tantos desafios contribuir para fazer a diferença na vida daqueles alunos do projeto, no qual fiquei dois anos.

Hoje, os desafios que nós enfrentamos são muito maiores. Ser professor nesse país é uma tarefa árdua, desafiadora; Além disso, não há valorização, nem remuneração digna e faltam condições adequadas de trabalho. Infelizmente educação não é prioridade no país. Ainda se tem muitos traços do período colonial, em que não se deseja ter mentes pensantes, cidadãos críticos na sociedade.

Diante de tantos desafios que nós professores passamos, se não tivermos amorosidade pelo nosso trabalho, como vamos enfrentar o dia a dia?

(Jocinere Soares – colunista do Tribuna do Recôncavo, é pedagoga, pós graduada em psicopedagogia clínica e institucional e graduanda em matemática). Clique aqui para ver comentários!

Mª Madalena Soares: Jocinere, você foi muito feliz em dizer que se reconhecido por um aluno é uma das maiores recompensa de um professor. Que bom seria se fossemos vistos como pessoas que fazem a diferença neste país onde a maioria dos heróis são apenas de conto de fada mesmo. Já que ser um professor e gostar da profissão é ser herói, mesmo não sendo valorizado como merece ser. Parabéns, continue fazendo a diferença! Deus te ilumine nesta árdua caminhada…

Maria do Carmo da Silva Santos: O conceito de educação ultrapassa o simples ato de decodificar letras e números, abrangendo a “formação e o desenvolvimento do ser como um todo”,constituindo-o cidadão, orientando-o e conduzindo-o à integrar-se socialmente, reconhecendo-o como ser humano. É urgente e necessário que a Instituição Escola priorize estes aspectos, capacite os profissionais que nela atuam para tal e viabilizem instrumentos (materiais) que possibilitem trabalhar nesse sentido.
Muito pertinente o Artigo da Professora Jocinere relatando a suas vivências pedagógicas, pautadas pelo ensinamento do mestre Paulo Freire que define a Educação como: “Um ato de amor e de coragem”. Parabéns!